quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

TEMPOS MARÍTIMOS



Nestes tempos marítimos, de incerteza, como que agarrados em carga ao mar, temos tendência a perceber como inútil o que na verdade é útil e vice-versa. Com sede, portanto, bebemos de uma água que tudo nos matará menos a sede. Num claro litígio histórico, o conceito de utilidade, atravessa um período perigoso de redefinição ambígua. Útil, nesta nossa sociedade materialista, aparece-nos como um significante evolutivamente violentado no seu significado, que se apresenta instável e transfigurador. Soa-nos válido, por exemplo, dizer que um poema ou uma música são inúteis, mas um leitor de mp3 ou um portátil, muito pelo contrário, surgem-nos como objectos utilitários. Que o homem que produz numa fábrica é útil, e que o pensador desligado da realidade produtiva convencional é inútil, é outra formulação recorrente. O que na verdade é bastante redutor. Aliás, é aí que me prendo, na perigosidade de, convencional e intelectualmente, acharmos certos fenómenos inúteis quando, na verdade, são bastante úteis, mesmo quando comparados com o jogo de conceitos que nos prefigura no nevoeiro a tempestade que atravessamos. Uma fábrica é útil, uma bomba é útil, o dinheiro é útil e um tupperware também, sem dúvida alguma e sem qualquer ironia. Mas não vamos agora continuar a dizer que um poema não é, um papagaio de papel não é, um homem imobilizado não é, etc. É tempo de começarmos a acreditar que como numa foz, entre o mar e o rio, entre o útil e o aparentemente inútil, existe uma linha ténue para ser atravessada, um outro lado mais calmo mas complementar. De perceber e saber olhar a violência do mar mas beber da água do rio. Tão simples como isso.   

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