segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O TABULEIRO DE XADREZ



Chegam cá a casa, com os seus
dedinhos meticulosos, e tratam
de – na desordem programada
das coisas – imprimir uma ordem
própria que encaminha melhor o puzzle
incerto dos dias, o embaciado
que impede o reflexo, ver mais além.
Gostaria egocêntrico que um dia
viessem a ouvir a mesma música
que eu. Ou pelo menos outros ecos
suficientes para compreender o mundo que se esconde.
O avô, na juventude – conta a memória
que até hoje se desmultiplica –
foi árbitro de xadrez, e eu, seu filho,
agora tio, só me lembro da movimentação
do cavalo, e só porque de regras
vetustas está o mundo cheio. Não jogo
há demasiados anos e trago nisso
um certo orgulho. Quando chegam,
e não escondemos o tabuleiro, tiranas
responsáveis pelos seus actos,
todas as peças se confundem
como num autêntico e sangrento campo de batalha.
Dias depois, reorganizadas pelos mesmos
dedos, sempre a mesma e caótica
ordem. Nada surpreendente. De um lado
e do outro, as tropas à frente, carne
para canhão, e nas filas de sombra,
de poder, preto no branco, tudo muito confuso. 

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