segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

EFEITO DE DISTANCIAMENTO



Sempre o mesmo sol a preencher de luz
o espaço e o rio por vezes evaporado
a denotar nos ares o seu nevoeiro cerrado
pelos montes no horizonte. De caminho
levantam-se as avós, gritam o sossego
do dia as crianças, e os lençóis, estendidos,
como quem chora, agitar-se-ão esquecidos até
receberem os seus abraços. O cemitério, esse,
avivar-se-á como todos os dias no seu horário
útil e não como em todos os domingos
de festividades fúnebres, seculares e perpétuas.  
E como se não bastasse – e notem que não
quero vender nada – vivo ao lado de uma rua
onde todos os dias rugem e param autocarros.
Qualidades estas que nem sempre fazem
sentido. Excepto hoje. Noto que crer
num equilíbrio que às vezes não existe
pode muito bem ser um belo e admirável exercício
de escrita, e mesmo assim, quando saio,
nunca saio a correr, espero sempre na paragem.

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