sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ENUMERAÇÕES AMOROSAS





1.

Como primeira, envolta no ministério do seu
olhar, trouxe consigo uma destreza saída
em gestos de Lolita
irresistível, uma sabedoria
excessiva para a minha saciável inocência em vaivéns
promessa de um sol de verão. Voltava,
partia (Páscoa, Natal ou Carnaval), disposta, tal
como eu, à dor que nos unia cadente.
Evolava a certeza de uma desgraça premeditada,
até que, um dia, os seus abraços se prolongaram
no tempo, e a doença, depois da ruptura, agarrou-a em surpresas
reveladas como nitratos de prata sobre papel.
Vi-me entregue à obrigatoriedade do esquecimento.



2.

Da segunda, de um Alentejo tão profundo
quanto o seu tamanho porta-chaves de conforto nocturno,
guardo o tactear dos seus seios polpa-de-caroços
e um cheiro a rata do campo,
as suas lágrimas, certa noite, molharam-me os pés,
e eu, ciente da necessidade que tinha dela,
umas quantas, muitas milhares de horas depois,
dei por mim, sozinho, numa cidade do interior,
à espera de algo imprevisível: um fim
não diagnosticável e a curto prazo.



3.

À terceira, como não poderia deixar de ser,
foi de vez. Incubada aqui em casa por necessidades
e horizonte, sensível q.b. a produtos lácteos,
menina de shopping salteada
do campo para a cidade, tive a minha primeira
experiência de ter por casa, pleonasmo
que se repetiu até às profundezas da teimosia.



4.

Uma por uma, com as suas razões holísticas,
lá me foram deixando como um rasto de sangue.
Não me recusei nunca, exceptuando
nos percalços exteriores a este desabafo, acreditando
na caducidade do contínuo,
à possibilidade crescente daquilo a que chamam amor,

esse exercício quase impossível
de sinceridade e compreensão.



5.

E se não guardo delas qualquer tipo de ódio que não
o do célere momento, a quente, como é óbvio,
todas as fugas são lanças na carne,
revertidas pelo que fica. A cicatriz, essa comichão
nos bastidores do corpo, solta o seu pus,
segrega, inevitável, o remorso da continuidade imediata.



6.

São então os dias agora longos,
e a sua longitude desenha-se curativa
na pele sulcada e perdida; nos corredores creditados
pela prova que falta para retomar o
rumo de acreditação das que chegam e partem,
incapazes de deixar um lenço que me obrigue ao amor.


[2009]

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