terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A GRAMÁTICA, O PODER E A BARBÁRIE



«A gramática é a regulação da vida, é o exercício do poder. A gramática são as normas instituídas pelo estado que determina comportamentos previsíveis.»

António Ferra



Esta afirmação, muito pertinente, levanta questões e evidencia, a meu ver, um bom facto. Diria mais: aliando a falta de qualidade no ensino, ou por má organização social do mesmo, mata o exercício de poder como dois coelhos de uma só cajadada. Que, não conseguindo demagógico exercer um bom domínio da língua por parte dos seus fronteirados falantes, dá ainda por si ciente que o próprio domínio da língua não lhe pertence e é um organismo vivo que se opõe aos seus exercícios de sistematicidade que, por sua vez, cientificamente conscientes ou não, se afirmam evolutivos, demonstrando que a teoria da evolução faz sentido mas só se nos esquecermos da parte filosófica que não questiona, problematiza. O ser civilizado, felizmente, atenta desde sempre contra a aparente imobilidade gramatical, contra a codificação labiríntica do poder temporário que a segura; e o poder, como sempre, desligado de uma realidade que pretende dominar apressado e defeituosamente, derrotado por um pau de dois bicos, insuficiente para neutralizar as necessidades básicas e problemáticas da sua sociedade graduável e naturalmente imperfeita. Nada melhor, então, do que o aforismo seguinte para engrossar e fechar esta ideia apenas concretizável (depois de meses e de um poema que abriu a porta lógica para o assunto) porque entremeada pela transcrição que abriu formalizadora, a partir de outros quinhentos, este corpo textual:


«Os bárbaros nunca existiram. São unicamente sintomas do terror que uma civilização alberga no que respeita a si própria.»

Rafael Argullol

Sem comentários: