quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A ENGUIA E O POÇO



Na velha Escânia havia um costume:
Nos negros e profundos poços
deitavam crias de enguias marinhas.
Essas enguias ficavam toda a sua vida
cativas nas trevas dos profundos poços.
Mantêm a água limpa e cristalina.
Quando alguma vez sobe a enguia do poço,
branca, horrorosamente grande, capturada no balde,
cega, retorcendo-se, entrando e saindo
do mistério do seu corpo, sem saber, inconsciente,
todos se apressam a deitá-la de novo à água.
Frequentemente creio estar
não só no lugar da enguia do poço,
mas ser o poço e a enguia à vez.
Prisioneiro em mim mesmo, mas esse eu
é já algo diferente. Estou lá.
E lavo-o com a minha serpenteante,
lamacenta, esbranquiçada presença nas trevas.


Lars Gustafsson

[Trad. Amadeu Baptista]

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