domingo, 30 de dezembro de 2012

A ÁRVORE DIGITAL



Era um homem a quem tinham enterrado a mão direita
Passava os dias metido num quarto vazio
Onde se sentava
Com os pés contra o ângulo superior da janela
E a mão esquerda segurando uma clarabóia
Por onde os rinocerontes
Enfiavam o chifre
E faziam brilhar a sua casca metálica

Tinha-lhe dado para ser poeta
E passava todo o tempo a falar da guerra
De tal maneira
Que tinha descuidado a mão direita
Esta cresceu lenta e furiosamente
E sem que ele se desse conta
Atravessou o mundo de um lado ao outro

Quando as crianças da parte norte de Sumatra
Viram aparecer uma árvore sem folhas e sem frutos
Correram espantadas a chamar os pais
Estes vieram com as suas grandes espadas
E cortaram a árvore pela raiz
           Um líquido branco leitoso saiu da casca ceifada

Desde então
O homem como um poeta
Sente uma dor terrível
Aguda
Num sítio do corpo que não consegue determinar


Armando Romero,
Um País que Sonha
100 Anos de Poesia Colombiana
[Trad. Nuno Júdice]

Sem comentários: