quarta-feira, 21 de novembro de 2012

PORQUE HÁ DIAS EM QUE TODO O AR NÃO CHEGA



«É claro que a solução passa pela descoberta de um lugar amoroso. Somos seres subnutridos, deixados à mercê do crime desde o primeiro sopro. O que nos falta, aquilo de que carecemos, é talvez de uma motivação generosa. Mas temos pouco para dar - essencialmente porque nos devem muito. Como dar, se tudo é sempre um esforço? Quando falo em 'dar' refiro-me sempre ao imaterial. Dar compreensão, imaginemos. Compreender o outro é um exercício hercúleo. Compreender o outro implica sempre que nos sintamos compreendidos pelo(s) outro(s). E embora seja possível ser-se 'excelente', no sentido aristotélico da coisa, há mais de dois mil anos que se sabe que não é prático. Não é prático ser-se afável quando se dorme mal, sistematicamente, há anos. Não é fácil ser-se gentil quando se é desrespeitado em quase todas as situações do quotidiano - quando, desculpem se exagero, a própria vida, da forma como está estruturada, é um desrespeito pela nossa natureza. Não acredito - não posso acreditar - que sejamos criaturas más. É que, quando observo as crianças, tendo a ver nelas toda uma potência à mercê do choque. As crianças, aos sete anos, são seres amolgados. Sofridos. E nós, que já fomos essas crianças, vejam só como estamos.»

Catarina Barros

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