terça-feira, 6 de novembro de 2012



(…)
O nome da ociosidade
soa mal; à boa e sã
(e mais já sobre a idade)
Sócrates da liberdade
lhe chamava sempre irmã.

Dou-vos Énio por autor:
quem usar não sabe do ócio
cansa e anda d’arredor,
e vem a ter mais negócio
que um grande negociador.

Porque este sabe após que anda,
aquele a si não se entende,
quando anda, tanto desanda,
não se obedece nem manda,
ora se apaga, ora acende.

Vê-lo ir, vê-lo tornar,
vê-lo cansar e gemer,
e em busca de si andar,
cobrar a cor e perder
que se não pode topar.

Mas eu, porque passa assi,
que seja muito, direi,
dias há que me escondi;
c’o que li, c’o que escrevi,
inda me não enfadei.

Sá de Miranda,
Cartas

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