quarta-feira, 10 de outubro de 2012



A uma Freira que disse que bom fora o Poeta satirizar-se também a si, pois era homem tão satírico


1.

Freira, quereis que um pasquim
a mim mesmo faça em verso?
Quando acaso me confesso
é que digo mal de mim;
porém se por zoilo enfim
me tem essa Religião,
fazei que jurisdição
vos dê a Abadessa Madre,
e ouvireis sem seres Frade
toda a minha confissão.

           
2.

Quereis que eu seja um marau?
Marau sou; que quereis mais?
Mau Poeta? É porque dais
assunto a que eu seja mau;
que quereis mais? Dar-me um grau
de asno? Sou; que mor ventura,
pois com o grau da formatura
que me dais ao vosso jeito,
sempre trago o meu direito
entre o vosso por natura.
           

3.

Pois que mais? Que sou magano?
Que muito agora assim seja,
se um perro Zote de Igreja
por tal me tem tão ufano;
serei eu; mas de tal pano
tão pardo que o perro é,
me afasta Congo e Guiné;
pois dos tais tendo o bodum
pode dizer: ego sum
e eu cantar: Libera me


 4.


Ora pois com demasia
me tenho bem tonsurado,
que a sátira me tem dado
quatro graus na Poesia;
também Vossa Senhoria
bem é que desta bolada
fique agora censurada
com quatro P.P.P.P. do Abcdário,
que declare o Calendário
pobre, porca, perra, pada.


Gregório de Matos

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