quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PRO FORMA

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A crítica literária funciona como um gerador de sentidos técnicos e interpretativos. Porém, embora a interpretação do crítico deva obedecer a uma análise não isenta de “eu” mas estruturalmente dissimulada, arguta e assente num domínio da literatura enquanto história e crítica, autocrítica por vezes, o exercício da crítica, cumprindo um dos papéis do acto de escrita – gerar novos sentidos – resume-se, por assim dizer, a uma procura que tenta encontrar numa dada obra as nuances particulares de um autor modelador de uma língua.

Cabe à crítica, então, evidenciar – muitas vezes para além da noção do seu criador, o autor – a linguagem enquanto fenómeno inovador que busca “partir” a linguagem comum na busca de sentidos e visões que a linguagem por si, quotidiana, não possui. Porém, embora essa busca busque na etérea plataforma da literariedade o seu momentâneo e volátil pousio, é da linguagem comum, a que nos é familiar, que a literatura se alimenta, e cabe ao crítico, estudioso não só de literatura per si mas também da linguagem (corrente, literária e meta-literária), o domínio destas, para si ferramentas, aliadas num poder de análise que procura, sincronicamente, denotar a técnica e os recursos de um autor situando-o num contexto seu contemporâneo mas também, dependendo da sua profundidade intertextual e analítica, no seu contexto histórico.

Ao crítico, que se move num universo que vale por si mesmo, num mundo criador que na sua criação questiona o próprio acto criativo, dando-lhe então outra dimensão, não se pode pedir mais do que o papel de um agente empenhado e exigente que procura e consegue, umas vezes melhor outras pior, imprimir dinâmica, neste caso em particular, ao mundo da literatura. Mais do que dinamizar uma obra, a crítica procura dinamizar a própria literatura.
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