quarta-feira, 8 de agosto de 2012

ANTES DO ÚLTIMO COMBOIO

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Às vezes, é tão bom esquecer a literatura
- e, acima de tudo ou de nada, a poesia,
com os seus devaneios de donzela perra,
a latir mazelas, agruras e evidências.

Passeámos juntos pelo arraial
de Oeiras, sob o rumor contínuo
de comboios e sardinhas (menos pontuais
mas boas). Luzes, carrosséis e bares
pediam-me a demora que não pude ter,
enquanto os gatos, soberanos, atravessavam
devagar a noite. Falávamos de nada, calmamente.

Às vezes - ou melhor: sempre - sabe bem
deixar para outro dia a literatura, pensar que
os poetas não passam de estátuas inúteis num jardim
concebido por bestas que nem sequer os leram.

É inegável que um churro ou uma imperial
são muito mais necessários do que qualquer soneto.
De uma maneira ou de outra, as luzes vão em breve
apagar-se, indiferentes ao riso que nos juntou
e que veio cair, por azar, no chão deste poema.

Manuel de Freitas,
A Última Porta

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