quarta-feira, 4 de julho de 2012

ALFENA E ALISMATÁCEA

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¡Ya no más –por favor– las aburridas descripciones de semillas tropicales!
                                                                                     
Gabriel Jaime Franco


A digestão da polpa de coco demora quarenta dias e quarenta noites.
Nem mais, nem menos.
Ao plátano de casca vermelha falta-lhe um grau para ser venenoso.
Compadre, não comas coco.
Se se tiver comido banana e bebido rum, morte pela certa. Ninguém comeu. Nem eu
tão pouco.
A pevide da pitaia se a comeres não a mordas, se a morderes não a engulas;
se a engoles, é contigo.
A pevide de granadilha se a engoles sufoca-te.
Para que não te sufoque, é melhor não comeres muita.
A pevide da romã não é como a da granadilha.
A pevide da goiaba não é como a da romã.
E a pevide da papaia não é como a da goiaba.
É como a da papayuela, só que mais doce.
Se é mais doce é mais saborosa, se é mais saborosa é mais cara.
Para que não seja mais caro não compres papaia nem compres nada.
A pevide da carambola é como a da chirimoya. E são ambas como as da abóbora.
Quando a alguém dão abóboras não dão chirimoya nem papaia.
As pevides da guama usam-se para fazer brincos,
quero eu dizer que se usam como pendentes,
ou melhor o que quero dizer é que as crianças penduram-nas nas orelhas.
Traz o corozo uma noz, traz a noz uma amêndoa,
mas a amêndoa da noz não é como a noz do corozo.
Se não se entende que não se entenda.
A ameixa lava-se, mas não se pela; o medronho pela-se mas não se lava.
Para saber se uma fruta se lava ou se pela há que consultar o dicionário.
O dicionário tem a palavra. E se não a tem é porque lhe falta uma página.
A polpa da algarroba enrijece-se e fecha-se.
Se bebes água forma-se uma pasta que se cola na garganta.
Com a garganta obstruída tenta ver se ofegas ou se não ofegas nada.
Se não ofegas mortus est.
O ajurú é uma fruta especial para diabéticos: não tem açúcar,
não tem farinha, não tem ajurú nem nada.
O que come melancia oxidada seguro estica o pernil.
Para não correr o risco é melhor comer sandia. A sandia é uma fruta sandia.
O tamarindo é uma fruta de que gosto mais porque é de negros e de terra quente.

O que seria dos brancos quando vão a terras quentes se os negros não lhes servirem refrescos de
tamarindo. Com
o sabor áspero do tamarindo formam-se bolas ácidas recobertas de açúcar que servem para
vender nas ruas de Cartagena e faz-se um mel espesso de tamarindo para barrar sobre folhas
de plátano. Também se fazem sorvetes para o arcebispo e além disso a árvore de tamarindo
produz uma sombra verde e fresca para construir um banquito e se sentar junto ao tronco.
O tamarindo é um tronco de árvore denso completamente cheio de tamarindos. Só os negros
os podem colher porque não é fruta de brancos. Se os brancos tivessem tamarindo então os
negros seriam brancos. Mas não pode ser.

Há muitas frutas que são de negros. Deus deu aos negros a terra quente e
as frutas porque Deus tem preferência pelos negros, isso é evidente.
Aos brancos pô-los em terras frias para que se resfriem,
mas inventaram estes a aspirina e as mantas de lã.
A nêspera e o mamey são frutas de negros. E o sapote também.
Mas o que é certo é que aos brancos sempre lhes soube bem comer
a comida dos negros. E a música dos negros.
E os bailes dos negros. E as negras dos negros.

Prossigamos: a minha negra fantasia-se, empertiga-se, tempera-se,
com alhucema e manjericão, com cidrão e cidreira,
com lavanda, com canela, com loção e com anis.
A minha negra tem um meneio que torna a rua insignificante,
move os tacões e as pontas dos sapatos e esse baile
derrama tantas fragrâncias que o ar não lhes chega.
A minha negra é tão alta e esbelta, muito lúcida e bem plantada,
o seu pescoço é tão longo que a sua cabeça anda pelo ar.
A graça da minha negra não cabe em parte alguma.
A minha negra tem olhos brancos, dentes brancos, cuecas brancas,
cuecas minúsculas, cuequinhas, roupas íntimas…
Eu não sei o que têm de íntimas se as andam a mostrar por todo o lado.
Quando a minha negra se despe fica completamente nua,
não como as brancas que mesmo quando se despem tem sempre algo a cobri-las,
embora seja um conceito. A minha negra não tem conceitos, ela nasceu e cresceu nua,
e portanto nunca se pode vestir completamente porque quanto mais se veste
mais nua fica.

A minha negra aceitável de cotovelo, tem cabelo macio, liso,
apetrecha-se, pinta-se, incensa-se, arranja-se,
deixa-se ir na rumba e regressa quando já alta a noite.
Eu não sofro pela minha negra. Como me alegra olhá-la!
A minha negra caminha em versos de quatro e cinco tonadas,
a sua fala é um canto largo, de palavras cortadas.
A minha negra é doce por fora. Por dentro nada eu sei.
Por dentro a minha negra tem alguma coisa guardada.

Aguinha de camomila,
tisana de rum e aneto,
a raiz da erva-limeira
e um punhado de sálvia.
O ar cheira a linhaça
com paus de canela.
Com alfena e alismatácea
vem pintada a minha negra.
Pintada não é a palavra,
vem mais azul do que negra,
como que esculpida no ar
duríssimo da pedra!

Jaime Jaramillo Escobar

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