terça-feira, 22 de maio de 2012

SÃO TRIPES!

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Anda um gajo (quase) literalmente a tripar (incluindo o sentido revoltado das ruas) que desde sempre, e mais do que nunca, a espécie humana deu mais valor por necessidade biológica à matéria do que aos afectos, e encontra um poema como este:


CARGAS

As cargas que levo são minhas.
Sou o seu dono. Nenhum ladrão
irrompe em mim e me rouba
as cargas que levo.

As cargas que tu levas
ninguém tas tira. Deténs-te
e sentes estranhamente pesadas
no sangue as cargas que levas.

Uma pessoa
não está só. Uma pessoa
com as mãos cheias de
dias e de noites, o amargo peso
das cargas.

Desafortunado o que não tem propriedades.
E o que não tem uma carga
que levar. O sentido da vida é ser vivida
e o das cargas serem levadas.
O homem não está só
sob o jugo.

Ama as cargas que
te unem à vida.
A morte é o ladrão.
Despoja-te das tuas cargas.

Ernst Orvil
[trad. Amadeu Baptista]

Poema que, não provando nada, acabou por resultar como uma boa laranja. Reequilibrou-me de uma (exagerada) bad tripe e acalmou-me os ânimos. Os ânimos desse gajo que afinal sou eu.
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