terça-feira, 8 de maio de 2012

«O SEU ERRO AINDA NÃO FOI ENCONTRADO»

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«Gillette tem hoje uma tal reputação e projectou-se tanto para a frente, que se afastou de todas as deficiências de visão que originaram a ruptura entre ela e Alfa-Romeo. Sobretudo quando apareceu o mecenas Nepomucenas. O diálogo entre ambos, a partir desse momento, tornou-se impossível. Não se deu o caso de Mecenas Nepomucenas o ter posto de parte quando começou a interessar-se pela obra de Gillette. Pelo contrário, o Mecenas Nepomucenas dedicou-lhe grande atenção e prometeu interessar-se particularmente pelas suas teorias. Achou-as um tanto derrotistas, mesmo extravagantes. Mas prometeu auxiliá-lo na expansão das suas ideias. Declarou-lhe que ele, Mecenas Nepomucenas, por seu lado, tinha uma visão latitudinária das coisas. Que tudo assentava no princípio dos vasos comunicantes, e que na sua qualidade de eterno estudante de mundologia, estava pronto a dedicar-lhe algum do seu dinheiro pois, no seu critério, Alfa-Romeo era o que se podia dizer (e usou mais uma das suas expressões favoritas) um contemporâneo do futuro.

Porém, Alfa-Romeo nunca cedeu na sua oposição. Por nada se deixaria arrastar pelo considerava a aragem da facilidade. Um dos quadros de Gillette, O Pião, parecia-lhe ser a denúncia de uma fraude organizada. Era um quadro com várias fitas plásticas, que se punha em movimento rotativo pelo sistema do pião, por meio de um cordel que o espectador puxava. Ao entrar em movimento, O Pião, ia formando vários quadros. Ora, era precisamente contra esses quadros que ele se insurgia, por serem todos de autores conhecidos. Durante aquele momento, surgiam no não-espaço de O Pião obras de Kandinsky, Szwiters, Miró, e de tantos outros grandes instigadores da arte do século XX. Valeria a pena fazer o que já estava feito há tanto tempo, durante tão pouco tempo?

– Se todos fossem como tu – respingava Gillette – nunca mais ninguém fazia nada. Ia-se só aos museus. Estás a aconselhar o imobilismo, é o que é!

Alfa-Romeo pela última vez tentou explicar-lhe que era preciso criar ruínas modernas. Só daí em diante se poderia ir mais para a frente e, mesmo assim, muitos ficariam pelo caminho. Talvez até fizessem marcha atrás. Para a convencer mais, falou-lhe nas leis das probabilidades. Que Gillette tinha que ver a sua situação geográfica e que deveria ainda acrescentar um outro elemento de dúvida: a inteligência genética. A impotência criadora corria-lhe nas veias. Deveria fazer uma análise aos grandes conjuntos económicos em relação com a arte. Tomando como símbolo as catedrais e, indo por aí fora, ver com atenção o património artístico de que era herdeira.

Não lhe foi difícil compreender, pelas lágrimas com que Gillette recebeu a sua teoria, que ela ia partir. Saboreou, ao menos, as últimas sensações que ela lhe poderia ainda oferecer a começar pela sensação táctil do contacto dos dedos nos seios e o resto que vinha depois.

As equipas encarregadas de eliminar os ruídos nos automóveis poderiam servir de exemplo para a formação de especialistas em mobiliário capazes de extrair o ruído das camas.

A casa em que viviam tinha umas paredes pouco espessas. Ouvia-se tudo do apartamento contíguo. Por um destes caprichos que o acaso produz, constantemente, o leito conjugal do andar vizinho estava apenas separado da cama de Gillette e Alfa-Romeo por uma ténue parede comum, tanto de um lado como do outro, já tinham dado por isso. Às vezes os sons misturavam-se, os ruídos confundiam-se. Quando todos, por acaso, se encontravam no dia seguinte no elevador, o silêncio era forçado, a respiração levemente contraída e a troca de olhares excessivamente discreta. Parece que a cidade vertical, modelada por Manhattan, está a ser mal vista nas mesas redondas dos países pobres entre arquitectos das novas gerações que, no entanto, não querem regressar à velha cidade horizontal dos países ainda mais pobres. Há muito a esperar da arquitectura. Deve exigir-se que seja mais do que uma simples forma de habitação. Finalmente, é um campo onde se encontram os adversários de toda a espécie. Onde a honra está sempre em causa, a vida em perigo.

Depois da partida de Gillette, Alfa-Romeo começou a sentir dificuldades em arranjar dinheiro para a renda da casa. O Mecenas Nepomucenas tinha prometido dar-lhe uma bolsa. Mas não cumpriu a promessa. O senhorio, o Sr. Trolha, acabou por tomar a decisão de ir pessoalmente falar-lhe. Quando foi por ocasião de alugarem a casa, tinha manifestado uma grande simpatia pelos futuros inquilinos, coisa rara entre os proprietários dos grandes imóveis. Houve mais tarde uns meses de crise em que ele condescendeu. Gillette tinha-o procurado nessa altura e o Sr. Trolha, na verdade, não só se manifestara condescendente como até a convidara para um aperitivo. De toda a evidência, o Sr. Trolha saíra um tanto dos moldes estabelecidos entre inquilino e proprietário. Nessa ocasião apresentara-se como o homem que já tem o suficiente para si e para os seus. Um pouco de compreensão pelos artistas dava-lhe certo prazer, tornava-lhe a vida menos insípida, embora não fosse muito dado às artes.

Não que ele agora desse a entender de repente que pensava o contrário. Mas a vida, afinal, está sempre a ensinar-nos todos os dias. Nessa manhã bateu à porta, tossiu antes de entrar e pediu desculpa por ter vindo a uma hora que talvez não fosse conveniente. Tossiu, porquê? Porque o corpo do senhorio é composto por três partes distintas: cabeça, tórax e abdómen. O corpo está coberto por um fato caro, no tórax vê-se uma gravata com um alfinete de pérola e no abdómen há, por vezes, uma corrente de ouro que passa entre as casas do colete. Hoje, os senhorios são muito diferentes uns dos outros. Mutações se têm dado que operam efeitos precisos. Muitos têm-se afastado exteriormente das características gerais. Na verdade, o termo senhorio é frequentemente usado em discussões de carácter social, mas não há senhorios no sentido estrito da palavra. O que há, é uma abundância de homens que aplicaram simplesmente o seu capital num imóvel, e isso deve atribuir-se a factores de ordem económica mais complexos.»
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Manuel de Lima,
A Pata do Pássaro Desenhou
uma Nova Paisagem

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