sexta-feira, 11 de maio de 2012

DESOBRIGACIONISTA

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Há cenas do caralho. Muito para além de um mero exercício de estilo, pois não tenho orgulho nem proveito algum nisto, tenho um grave problema com obrigações, e só por isso deveria este texto ser um mero simulacro de cotovelo encostado à parede e perna cruzada, estátua-símbolo e rebuscada de um bom enganador, mas não é o caso. Tenho um grande problema com obrigações e isto não é d’agora, pior: não é de agora mas também não sei quando começou, em que momento da minha vida dei por mim a negar-me, desobrigacionista, ao que quer que seja, até porque, até uma certa idade, esforcei-me por ser um menino bonito e bem comportado. Limpava a casa, cozinhava. Ia à loja algumas vezes por semana sob o jugo de pedidos de vizinhas idosas das pernas e tudo. Cheguei a dado momento, praí aos 12 anos, a acreditar que era sobredotado. E agora, anos depois de ter deixado a escola e mudado de casa, cinco anos (?) depois de alguns trabalhos e mudanças – outra e outra vez –, de regresso à base, dou por mim na casa em que vivi desde os seis anos até aos vinte e… não sei bem, às duas da matina, a passar o trecho da mensagem anterior e a pensar: Há cenas do caralho, já ando para ler este livro do Machado de Assis para a facultas há totil e ainda nem a meio vou. É dos mais saborosos livros que já li, ainda para mais surpreendente tendo em conta a época em que foi escrito, e só não o acabo e meto outros na fila porque os outros, alguns de História e por isso bem mais enfadonhos, fazem parte da minha escolha e não de uma lista organizada por catedráticos, a maior parte deles até bem cativantes, nem sempre à altura da pedagogia, mas poços cintilantes de saber e amor ao que ensinam. O que só demonstra que para além de também me encher de escrever, daí a aceleradela textual, voltei a cozinhar e sinto-me novamente um sobredotado, mas desta vez, memória recente, um daqueles que tudo compreende mas nem metade assimila. Vamos todos acreditar que (…) porque tenho um problema com obrigações (extra-particulares) e não uma maneira peculiar de olhar e ver as coisas. Qualquer outra hipótese, no caso e se quiseres meter o teu bedelho, leitor, é mera suposição de quem me lê.         

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