sexta-feira, 4 de maio de 2012

BÁRBAROS DE PANTUFAS

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Ser assaltado por bárbaros de pantufas, confesso, não é das imagens mais assustadores que se pode guardar em movimento na memória – deixa leves marcas, é um facto. Há uns anos atrás seria aliás impossível juntar tais palavras: bárbaros e pantufas. Bárbaros, no dicionário, em primeiro lugar surge como adjectivo e desmultiplica-se em três pontos: no primeiro Cuja cultura medeia entre a dos civilizados e a dos selvagens; no segundo Próprio de quem não é civilizado; e, no terceiro, figurativamente escrevendo, falando, rude; tão só e não apenas. Já no que toca ao seu plural, mais dois pontos: o quarto, Povos do Norte que invadiram o Império Romano do Ocidente (fenómeno ontologicamente já sem sentido directo excepto por sodomia histórica) e, no quinto, Os estrangeiros em relação aos gregos e romanos. Em latim, escreve-se barbarus, podendo-se traduzir por, diz o dicionário, e pondo de parte palavras já aqui expostas: inculto. Se tivermos em conta que vivemos na sociedade mais instruída e culta que alguma vez se conheceu, onde o conhecimento por quantidade não pode passar inócuo e sem mais nem quê à qualidade – indisfarçável e sem qualquer tipo de ironia minha – resta-me tentar, como mandam as leis, perceber a fundo, retomando o dicionário, o significado da palavra pantufa. O dicionário não mente: pantufa, do francês pantoufle. Num fantástico um dois, podemos ler no primeiro significado: Chinelo ou sapato muito confortável, geralmente para agasalhar os pés = pantufo; já no segundo, numa perspectiva popular que desconhecia (e aqui, tal como no primeiro, até faz algum sentido tendo em conta o assunto em que aqui falo – implicitamente e basta –, a metafísica que me fascina) Mulher gorda com vestido muito rodado. Prontos. Agora tudo, penso eu, para quem lê, faz muito mais sentido. Ou não. Quero eu com esta demonstração de mergulho provar que o conhecimento, por si só, a própria linguagem, quando juntas numa mesma frase as palavras bárbaros mais pantufas, não consegue, no que diz respeito a interpretações, absorver de imediato o imediatismo absurdo, apesar de aparentemente ridículo, que acarreta tamanha e aparente improbabilidade. Estamos actualmente a ser invadidos por bárbaros de pantufas, é uma verdade inegável. E agora sim, tudo faz mais sentido, sinto-me orgulhoso: nunca tive, na puta da vida, nem um meio par de pantufas. Já fiz no entanto algumas fogueiras. Eu que sempre preferi a compreensão pelos outros em detrimento da religiosa pena, não posso porém compreender quem me atropela. Dessem-me uma estadia nos barbados e acreditem que apenas usaria, nos pés, chinelos de meter o dedo. Há que reconhecer que andar por aí de pantufas além de parecer mal é ridículo, é uma forma muito estúpida de perder tempo. E é esta a metafísica da minha era, a que se pode concluir. 
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