terça-feira, 17 de abril de 2012

O HOMEM QUE CALCULAVA

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Começou a classificar os amigos e conhecidos em duas categorias opostas:

a)     Os que queriam que ele se empregasse;
b)     os que lhe achavam graça mesmo assim.

É preciso dizer-se que nos achávamos numa sociedade de gente empregada ou por conta doutrem, ou escrava de si própria, ou trabalhando para o Estado.

A classe a) pertencia gente honrada e digna mas, caso notável, ao falarem-lhe das vantagens de um emprego esqueciam-se com certeza que um quarto de hora antes se tinham estado a lastimar do seu emprego – dos compromissos, engrenagens, desvirtualidades, perdas de tempo e de inteligência, baixezas e asneiras a que esse emprego os conduzia, sem remédio. Sem remédio? este estava à vista: era desempregarem-se, libertarem-se (do emprego) usando truques engenhosos e arriscando-se no futuro. Ora, com tantas e tão continuadas choradeiras, era isto que esses tais amigos não faziam.

Outro caso notável: ao dizerem-lhe que arranjasse um emprego, muito pouco faziam para que ele próprio se empregasse, para lhe arranjarem, realmente, um emprego onde ele se empregasse. Pelo contrário: exploravam a sua bela ociosidade (forçada ou voluntária) encarregando-o de tarefas gratuitas, tarefas de que nenhum homem empregado ou desejoso de se empregar se encarregaria gratuitamente, porque (e não falando no resto) o tempo de um homem empregado ou empregável vale dinheiro – tarefas de que ele se encarregava alegremente ou porque gostava delas, ou porque tinha tempo a mais e se distraía nas tarefas dos outros, ou porque o justificavam na sua aparente (voluntária ou forçada) ociosidade, ou até só para ajudar os amigos ou retribuir as ajudas deles – o que lhe fazia diminuir o seu sentimento de dependência (forçada? voluntária? casual?).

O facto de ele fazer coisas que mais ninguém fazia (gestos gratuitos, brincadeiras a rir ou a sério) e de as fazer ou poder porque se tinha colocado na situação disso, tinha-se habituado ou adestrado a ela (era fácil? era perigosa? parecia fácil; talvez fosse ou viesse a ser perigosa: ele tinha calculado todos os riscos, não estando seguro contra eles), esse simples facto dava-lhe uma qualidade a qual se revelava, pelo menos, singular e talvez até necessária num mundo fixado em réguas apertadas.

Ora esta qualidade, esta singularidade era aquela que os tais amigos da categoria b) nele apreciavam. Achavam-lhe graça a ele, não por ser engraçado (longe disso! era até um tipo macambúzio e cavernoso), mas por fazer coisas engraçadas, por levar uma vida engraçada.

O que principalmente distinguia esta gente da classe b) era que, ao contrário da a), era uma gente bem definida: ou boémios vivendo alegremente dessa boémia; ou gente instalada num viver burguês e pacato, sem pretensões intelectuais ou artísticas de espécie alguma e que viam nele O Outro, o oposto. Isto é: eram gente que tinha afinidades com ele e que na camaradagem dos boémios e dos vagabundos se acolhiam e entreajudavam ou uma gente inteiramente diferente dele, sua antípoda, que não temiam a sua concorrência e achavam-lhe um ar exótico e pagavam para isso. Não havia ali meios-termos, gente dupla, a jogar em todas as cartas do triunfo ao mesmo tempo e baralhando os naipes, perdendo ora nuns ora noutros, perdendo tempo, em suma. E se há gente desgostosa e desgostante é esta, incapaz de acertar a relojoaria própria, acorrentada à sua duplicidade, ambígua, ziguezagueante, desnorteada, aos encontrões aos outros, e sempre resvalando para a valeta, porque a meta são duas, jamais se unem, e combatem-se uma à outra.

Começou a pensar que esta gente desgostante, fracassada e humilhada pelos seus fracassos, mas respingona e desejosa de confundir-se com os que vão no seu caminho, não merecia a menor consideração. Nem confiança.»
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Luiz Pacheco,
Exercícios de Estilo

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