terça-feira, 24 de abril de 2012

NEAL QUÊ? CASSADY? UM VERDADEIRO MENINO À BEIRA DE FAUSTO BOAVIDA

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«Não acabei nenhum curso.

Fui litógrafo e, uma ocasião, houve que “pirar-me” para as estranjas porque no eléctrico pró Carmo era variável ou invariavelmente a lancheira do meu pai ou as pessoas que tresandavam a chumbo, a bacalhau, a urina. Eram uma erosão de cheiros. Estava farto e, porque nessa altura eu tinha um quadro pendurado de pernas para o ar num Salão do S.N.I e assim se manteve (segundo notícias fidedignas) nas paredes da Bienal de Paris, decidi-me a ir lá dar um jeito. Ora Paris estava convulsa com o caso da Argélia e, obviamente, este meu tom mourisco d’aquém Arrábida trouxe-me um ror de problemas. 78 prisões ao todo. Falta de documentos, Álcool, Droga, Roubo, Desordens, Roubo. Roubo. Roubava livros de dia e automóveis à noite. Uma história? Mesmo pequenina? Uma ocasião, adormeci no banco traseiro de um carro que utilizei como albergue e, pela manhã, o dono levou-me num passeio até à Madeleine sem suspeitar do meu corpo extenso de medo à ressonância do motor em marcha. A minha cara, o olho pando, o punho rochoso do meu nariz, a barba de alguns dias, surgem no espelho retrovisor do meu anfitrião como, por certo, uma visão assoprada pela noite.»

Fausto Boavida

Luiz Pacheco,
Textos de Guerrilha   

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