domingo, 29 de abril de 2012

HÁ QUE PERCEBER MAIS E MELHOR

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Para todos os da minha geração que nunca perceberam muito bem o que se passou no pós-25 de abril, e para todos os outros de outras gerações que também não, aqui fica uma tese sobre o denominado «verão quente de 1975», o verão onde tudo se partiu e decidiu como decidiu, berçário da democracia portuguesa e da desilusão presente. Podemos perceber, a partir daqui, que de uma forma mais geral, ou não, a esquerda é associada ao radicalismo, e a direita, às páginas tantas, é apenas vítima dele, que, escondido, no percurso da história mediática, obscurante, se esquece propositadamente de si. Por estas e por outras, passando pela caricata reportagem filmada no dia 11 de Março de 1975 (que arranca ao minuto 4:26 e se prolonga, se não me engano, para a 2ª e 3ª parte do vídeo), dei por mim a querer saber mais e a ler, embalado, História Política de Portugal, 1910-1926, de Douglas L. Wheeler, mais um livro na fila para engrossar e aniquilar, a curto-prazo, com todos os outros que terei de ler para a faculdade. Nem de propósito, e os sublinhados são meus, vale bem a pena tentar perceber e interpretar, através de nós e dos outros, o que se vem afinal passando com este país, que se não é de agora é de ontem e se não é de ontem é de anteontem:


«As razões do declínio de Portugal como potência mundial [?], que começou no século XVI, foram estudadas pelos pensadores portugueses durantes os quatro séculos seguintes e muitas explicações foram apresentadas nesse sentido. Durante os séculos XVII e XVIII tal como, mais tarde, no período pós-1820, insistiu-se nos conceitos de decadência e degeneração. A explicação baseava-se no facto do portugueses terem um carácter nacional distinto, que os levava, de algum modo, a serem inimigos do progresso e da renovação nacional. Este lugar-comum reapareceu nos séculos XIX e XX, à medida que as novas ideias europeias sobre a sociologia, a antropologia e raça se filtravam para os grupos cultos. Alguns pensadores antigos, tais como Severim de Faria, explicavam que o declínio era causado por factores sociais e económicos, tais como a emigração para as colónias e a preguiça das classes altas.»

«Uma discussão histórica de Portugal depois de 1820 começou com o estudo do seu declínio no século XVI. Essa discussão repercute-se numa análise de era moderna, por muitas razões: os pensadores portugueses, de ontem e de hoje, têm um profundo sentido da tradição histórica, que projecta as suas análises no passado remoto. Alguns historiadores da crise contemporânea consideram que o declínio que começou na crise do século XVI representa uma situação semipermanente em Portugal. Esta discussão é também útil por uma razão negativa: nos meados da década de 1920, os conservadores influentes, ao analisarem o fracasso da República, insistiram numa analogia simplista entre a crise do século XVI e a de 1920. Vivendo em 1925-1926, estes escritores criam que, tal como em 1580, Portugal estava em perigo de perder a sua independência. Esta semelhança era dada normalmente como uma razão para aceitar a ditadura que, segundo afirmavam os seus partidários, nunca permitiria que em 1926 sucedesse a Portugal o mesmo que tinha acontecido em 1580. Estas afirmações tendenciosas e analogias fáceis, muitas vezes vestidas de alarmismo histórico, eram alguns dos argumentos mais comuns da Direita.»

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