sexta-feira, 20 de abril de 2012

DA SOCIEDADE (E) DO RISO

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«O que a vida e a sociedade exigem de cada um de nós é uma atenção constantemente desperta, pondo a claro os contornos da situação presente; uma certa maleabilidade do corpo e do espírito [da mente] que nos ponha em condições de a ela nos adaptarmos. Tensão e elasticidade, eis duas forças complementares uma da outra que a vida faz entrar em acção. Faltam ao corpo? Temos acidentes de toda a espécie, as imperfeições, a doença. Faltam ao espírito [à mente]? Segue-se toda a gama de deficiências psíquicas, todas as variedades da loucura. Faltam finalmente ao carácter? São as inadaptações profundas à vida social, fontes de miséria e às vezes ocasiões de crime. Uma vez afastadas essas inferioridades que interessam à parte séria da existência (e elas tendem a eliminar-se a si próprias naquilo a que se chamou a luta pela vida), o indivíduo pode viver em comum com outros indivíduos. Mas a sociedade exige ainda uma outra coisa. Não basta viver: é preciso viver bem. O que ela agora teme é que cada um de nós, satisfeito por prestar atenção ao que diz respeito ao essencial da vida se deixe levar, em tudo o resto, pelo automatismo fácil dos hábitos adquiridos. O que ela deve também recear é que os membros de que se compõe, em vez de aspirarem a um equilíbrio cada vez mais subtil de vontades que se inserirão cada vez mais perfeitamente umas nas outras, se contentam em respeitar as condições fundamentais deste equilíbrio. Um acordo tacitamente aceite entre os homens não lhe basta: deseja um constante esforço de adaptação recíproca. Toda a rigidez de carácter, de espírito [mente] e até de corpo, será por isso suspeita à sociedade, porque ela é o sintoma possível de uma actividade que adormece, duma actividade que se isola, que tende a fugir do centro comum em volta do qual a sociedade gravita, duma excentricidade, enfim. E no entanto, neste caso, a sociedade não pode intervir por uma repressão material, visto não ter sido atingida materialmente. Encontra-se em presença de qualquer coisa que a inquieta, mas apenas a título de sintoma, apenas uma ameaça, quando muito um gesto. E é por um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser qualquer coisa neste género, uma espécie de gesto social. Pelo terror que inspira reprime as excentricidades, mantém constantemente despertas e em contacto recíproco certas actividades de ordem acessória que correriam o risco de se isolar e de se esbater, apaga, enfim, tudo o que possa ficar de rigidez mecânica à superfície do corpo social. O riso não provém, pois, da estética pura, visto que prossegue (inconscientemente e mesmo imoralmente em muitos casos particulares) um fim útil de aperfeiçoamento geral. Têm, no entanto, qualquer coisa de estético porquanto o cómico nasce no momento preciso em que a sociedade e o indivíduo libertos dos cuidados da conservação, começam a considerar-se a si próprios como obras de arte. Numa palavra: se traçássemos um círculo em volta das acções e disposições que comprometem a vida individual ou social e que pelas suas consequências naturais a si próprias se castigam, ficaria fora deste terreno de emoção e de luta, numa zona neutra onde o homem se dá simplesmente em espectáculo ao homem, uma certa rigidez de corpo, de espírito e de carácter que a sociedade gostaria ainda de eliminar para obter dos seus membros o máximo de maleabilidade e a mais alta sociabilidade possível. Esta rigidez é o cómico e o riso é o seu castigo.»
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Henri Bergson,
O RISO

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