sexta-feira, 20 de abril de 2012

CERVANTES, EU E OS PORTUGUESES EM GERAL

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«Quanto aos portugueses, é coisa longa para te descrever e te pintar as suas condições e características, porque, como são gente enxuta de cérebro, cada louco com a sua loucura; mas generalizando, podes explicar que, envolto em rendas, vive neles o mesmo amor.»

Miguel de Cervantes


Olhando para este trecho vertido para português por mim a partir de um livro de Cervantes (é mentira), onde compara as gentes territoriais da nossa península passando pelas do nosso território, pelos que cá nasceram, dou por mim não a dar-lhe razão, porque não sei se era isso que ele queria dizer, mas a interpretá-lo como homem bom conhecedor das nossas gentes e costumes e ainda por cima, actual, não sei bem quantos anos depois.

Quando falo das nossas gentes (e peço desculpa) não me refiro generalista às da nossa península – como levianamente já devem ter percebido – mas às do nosso territorial nacional, e não quero com isto dizer, embora não me importasse, que mais me valia ter nascido em espanha, longe disso, até porque isso das nacionalidades, exceptuando alguns inerentes costumes e particularidades, não me diz nada, deixou a certo momento da minha vida (no sentido contraditório a esta) de fazer sentido.

O assunto, delicado, bem mais delicado do que o que se possa pensar, é um assunto porém fácil e recorrente, assume-se até como exercício colectivo comummente praticado há bastantes anos por esse ente colectivo a que chamamos carinhosamente população portuguesa, é uma das suas características idiossincráticas, e no que diz respeito a esta generalização penso que estamos todos mais ou menos de acordo.

É por aí que começo e acabo, então. Cervantes, que a meu “acidado” ver escreveu Dom Quixote de la Mancha baseado no nosso (?) e saudoso (?) Dão Sebastião, que terá, antes de partir para Ceuta, lido demasiados livros de cavalaria e acidificado pelas circunstâncias, partido inocentemente e patético cheio de convicções como qualquer português orgulhoso do seu país ao ponto de não saber analisar o que vê quando olha para este enquanto possibilidade de assunto, quando este é referido por outro, não-autóctone, ou honrado por um prémio qualquer que não doura a qualidade do premiado, consegue com este pequeno trecho definir aquilo a que eu chamaria “síndrome religioso de ser português”. Nunca li nenhum livro do José Gil e ele certamente perceberá mais e melhor da poda do que eu, e pode até já ter tocado no assunto como midas, mas quando eu uso essa expressão (“síndrome religioso de ser português”) e olhem que é a 2ª vez na vida, quero, nada mais nada menos, dizer que somos, e sempre fomos, os maiores beatos da europa e não é por termos abandonado as estruturais “rendas” religiosas que perdemos antiquados hábitos que só loucuras místicas individualizadas podem justificar, muito pelo contrário: parece que ainda não percebemos que os hábitos, nada acomodados mas sempre confortáveis, tanto se instalam em locais de credo como (e desculpem o sarcástico nó) em assépticos pousios.

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