quarta-feira, 7 de março de 2012


Parece-me mais ou menos acertado ver na Poética, na do fastidioso Platão, um conceito de verdade que, ao recusar a mimesis, procura idealizar uma que descortine, interpretativa e fiel, as realidades fenomenológicas ligadas entre si na busca de uma percepção por maior proximidade interpretativa com as injustas realidades que vigoram na nossa atmosfera terrestre. Vejo no seu idealismo, aparentemente impossível por contradição, assim a despropósito, uma forte justificação para o jornalismo de investigação ou até para aquela literatura que não se afirma como de consumo e entretenimento. Nem de propósito, dias depois, encontro esta frase simples de um sugerido realizador iraniano, fenómeno este que, juntado a outros, já me deveria, afinal, ter convertido num convicto supersticioso: “Em alguns casos, para ater-se à verdade é necessário trair a realidade”. Frase esta que dá uma nova vida à tão gasta e desacreditada verdade levantando a eterna e tão oportuna mas ainda abstracta (demasiado complexa) questão que tanto me irrita quando falamos de “criação artística”, expressão que, quando interpretada sob a luz do presente, ainda me mete, confesso, por egoísmo, um bom asco.

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