terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

SANGUE QUASE SECO

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A tarde caiu como pôde: mal,
chuvosa, com as investidas do vento
ditando frases sem grande efeito
nem consequência. O quarto
sujo, a mesa e o copo, uns rodeios
a lápis e o livro aberto do poeta
que hoje te destrói.

Não foi por desconsolo que voltaste,
mas com a última luz do sol num pedaço
de papel e, de hora a hora, o sinal
sonoro de comboios seguindo
para algum lugar, o princípio de outra
noite, um mesmo indiferente destino.

Num saco de plástico três latas
de cerveja, e já vais apalpando
nas sombras e nas ruínas, por entre
um cheiro a mijo e flores mortas,
no aperto de uma rua qualquer
ou da quase amigável canção que
um bêbado, abusando de uma guitarra
só com três cordas, vem lembrar-te.

Nem é triste, mas de novo cansa-te
o passado, velhas histórias que ainda
contam e vão repetindo ao ouvido
de uma criança já morta.

Achas o teu rosto meio indefinido
junto a um vidro e depois dessa troca
de olhares magoados, do lado de lá,
julgas vê-la. E inclina-se: uma mão
a segurar o cabelo, apoia-se na outra
e leva a boca ao bebedouro. Roda
um pouco a cabeça e vem de novo
o efeito lento e escuro daqueles olhos,
com os lábios húmidos no desenho
calmo do sorriso. E não é ela, claro,
apenas outra provocação.

Semanas mais tarde o hábito pede-te
mais algumas horas, as palavras
vêm ainda para uma falta
de sentido a que te acostumaste,
que te agrada até. Repetidos e doces
lugares vazios onde te demoraste
sem querer nem esperando mais
desta língua morta, a poesia.

Diogo Vaz Pinto

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