terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NO MELHOR E NO PIOR, JÁ NÃO SE FAZEM PESSOAS COMO ANTIGAMENTE*

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Falava-se há dias na blogosfera em crítica literária, e nem de propósito, mais tarde do que nunca e por isso a tempo, fica aqui a opinião de Luiz Pacheco, lida em Puta que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco (de João Pedro George), maluquinho orgulhoso para todos os gostos e feitios e por isso sempre oportuno se tivermos em conta que este semestre começo a dar e a exercitar, “com a devida linguagem” (algo do género), por sugestiva e irónica suposição, esse mesmo hermético (?) ofício de análise:

«Ao tipo de crítica que praticava chamava-lhe Pacheco “crítica de identificação”, um conceito que explicitou num artigo precisamente com esse título:

Conhecendo o autor e as actividades dele em vinte anos, posso eu (devo) constranger-me a uma imparcialidade impossível por falsa? Dito por outros termos: posso (devo) fazer tábua rasa da sua conduta, naquilo que nos opusemos e opomos se as atitudes que os vi tomar forçosamente abandalharem as suas obras? reduziram-nas a uma mercadoria congeminada na mentira e na má consciência? Vos arrenego que tal não farei. DIZE-ME QUEM ÉS E COMO AGES, DIR-TE-EI O QUE ESCREVES. De caras e cara-a-cara. Logo, loguinho. Antes de abrir-vos o livro aposto comigo (se é tipo meu conhecido) e depois vou ver. Lá está! Queriam (convinha-lhes, não era?), então, que ficasse calado? fizesse friamente a dissecação retórica e inútil da polivalência significante, da linearidade da expressão, da libertação metafórica, do gosto pelo conceptual, do esquema rítmico, da intencionalidade fundamental, do teor poético, oh meu deus! Ná… Tiro-lhes antes o retrato à la minuta (mas com uma, a minha, memória de elefante) e já‘stá!... Saiu fotomaton? paciência. Foi do meu humor do momento. Ou da caricatura em que se tornaram. Caricatura de homens, de escribas. A culpa não é minha se o retrato ficou parecido e tresanda a malfeitor procurado pela polícia. A isto chamo crítica de identificação. [Figuras, p. 196]

Nas críticas de Pacheco o leitor pode ir buscar algumas ideias sobres as obras criticadas, mas também informar-se sobre os respectivos autores na sua condição de indivíduos que intervêm na vida pública. Além disso, encontra uma série de informações sobre a vida do próprio Pacheco, já que ele sempre aproveitou para falar do seu mundo e da sua experiência no meio literário. No fim de contas, a crítica, tal como a entendia e praticava, era também uma forma de autobiografia, isto é, servia para reflectir a vivência do crítico.»

 
*Cliché fantástico e sempre actual.
    

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