quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A MATILHA

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As mãos perderam a força,
nunca a tiveram a não ser no descanso,
a que havia não dava por isso e chegava,
mas ao sentir o cães ladrando tão perto,
há pouco, onde fui eu buscar
a nobreza que me dirigiu os passos firmes,
me endireitou  tão direito,
me fez olhar à volta com ar tão quotidiano.
e mesmo até me segurou o chapéu na cabeça?
Onde a fui eu buscar para ir ali como se a noite
se tecesse em estrelas
e as ruas em flores de silêncio,
ali, sentado atrás da baba e os uivos
e o tropel das unhas não retráteis?
E, quando ficaram exibindo-se junto ao candeeiro,
ainda prossegui,
cheguei ao fim e parando ofegante,
vendo a escuridão molhada além dos vidros embaciados
e vendo o deserto e o passado a que tudo pertencia,
vendo à excepção dos lábios futuros que só agora distingo,
tive saudades do tropel…
tive saudades dos latidos…
e do meu ar sereno útil,
que este que ficou não serve para nada;
não sei o que faria –
talvez lhes desse um osso…
talvez me abandonasse inteiro…
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
desse o que desse, equivalia…
pois equivalia!...
mas eu tomei gosto à baba, cães vadios!

6, 7/11/39


Jorge de Sena,
Perseguição

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