domingo, 12 de fevereiro de 2012

A CAPITAL DA DOR

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Vi há uns dias o filme Alphaville, de Godard, e hoje, depois da bola, (pus a gravar) Um Sítio Onde Pousar a Cabeça, documentário português sobre a obra, e a vida por trás dela, de Manuel António Pina. Do primeiro, a reter, em uma / duas horas de filme, uma frase: «Pessoas assim [a favor ou em silêncio contra o sistema, abençoado Dias Ferreira] servirão de terríveis exemplos para aqueles que vêem o mundo como um teatro quando o poder técnico e o seu triunfo é o único acto no reportório delas.»; suficiente para valorizar o excessivo dramatismo das personagens e aquele “não gosto de filmes franceses” que cada vez ganha mais força quando vejo filmes como este, programáticos de mais e emocionalmente pretensiosos, como me pareceu o documentário sobre o grande opinador.

Nem tudo no que diz respeito ao documentário, porém, está perdido, confesso que gostei de conhecer mais um pouco o homem por detrás das palavras. Mesmo depois de o ter ido ouvir há uns meses e não ter tido coragem de lhe dirigir umas palavras e um abraço que exponencial cá guardo há uns anos só para ele, é daqueles personagens da minha vida. Capaz de imprimir, depois de imprimido o jn do dia, uma força para além da morte que se prolonga em nós como um tapete de sala que nos forçaram a aceitar e a gostar, com uma fé nas palavras (ligadas a uma identidade pessoal e activa) que poucos conseguem manter, é ainda capaz amarfanhar o seu ego longe da comum e egocêntrica bolha dos intelectuais que ouvimos, os do costume, afogados na beleza das suas palavras sólidas como penedos do Gerês. Nota-se, na sua voz hesitante, que a certeza, para si, não está nas palavras imediatas, e isso, só por si, deixa-me ainda mais maravilhado e fervoroso. E, como se não bastasse, ainda escreve:



«Sempre que vejo nos noticiários da política e dos negócios alguns daqueles com quem tive vinte anos, pergunto-me se os nossos vinte anos terão sido um sonho ou se, como temo, é a mesquinha, quando não sórdida, actualidade que é um pesadelo dos nossos vinte anos.

Olhando agora alguns deles ninguém diria que tiveram um dia vinte anos. Mas tiveram. Eu vi. Eu estava lá. Cantei com eles as mesmas canções, jurei com eles pelas mesmas palavras desmesuradas, acreditei com eles nas mesmas coisas essenciais. Que aconteceu para que alguns de nós tivessem desertado tão facilmente e por um preço tão baixo, transformando-se naquilo contra que tiveram vinte anos e falando agora cinicamente de si mesmos como se falassem de estranhos?» (…)

[Sobre a Fidelidade, JN, 01\07\2007]

e, confirmando, pois não basta mesmo, do seu cenário caseiro, ainda sublinha a propósito:

«Critico muito amigos e a minha geração, porque, de facto, a maior parte deles traiu completamente aquilo em que acreditavam, e pior ainda: transformaram-se naquilo por que lutavam, no pior. Eu digo isso muitas vezes, escrevo muitas vezes e já disse muitas vezes. Já disse isso a muitos amigos e amigos da minha geração. O quê que pensariam?… Uma vez uma amiga minha, que ficou muito ofendida por umas coisas que disse dela, que ela fez no exercício de um cargo político… Eu disse não, não sou eu que te julgo. O meu julgamento, não deves temê-lo, deves temer é o julgamento da pessoa que tu eras quando tinhas vinte anos. Põe o problema assim: o quê que pensaria a pessoa que tu foste quando tinhas vinte anos? E pelas coisas em que acreditaste, da pessoa em que te tornaste… E eu acho que a maioria da minha geração não passa nesse julgamento.»


Sim, eu sei, é mesmo isso que pretendo deixar. Posso não ter gostado nem do filme nem do documentário, mas pessoas destas já não se fazem. Daí a "boca" que, diga-se de passagem e como se percebe, de original não tem nada e não se pretende como um atestado de estupidez.

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