quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ATITUDES DE LOUVAR

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Descobri no facebook de uma das minhas repórteres preferidas que ontem, naquela gala manhosa da Sociedade Portuguesa de Autores transmitida no canal da posição um da minha tv, que me fez mudar rapidamente de canal, João Pina – que sincera e ignorantemente não conhecia –, ganhou com OPREC já não mora aqui, o prémio de Melhor Trabalho de Fotografia. Não podendo, pelos vistos, estar presente, presenteou quem via com o seguinte discurso, bem sério e indicado, tocando nas devidas feridas, para os tempos de indefinição de carácter em que vivemos. Onde todos querem e em geral não sabem o que dizem, o que fazem, o que dizer, o que fazer, como dizer e como fazer:


«Senhoras e Senhores,

Com grande surpresa recebi a notícia de que tinha sido nomeado para este prémio SPA. Fiquei ainda mais surpreendido ao saber que os outros finalistas, eram o Paulo Catrica, fotógrafo cujo trabalho muito admiro, e o colectivo Kameraphoto do qual sou um orgulhoso... membro há quase uma década, com o fabuloso trabalho Um Diário da República.

Infelizmente, devido à imensa crise que atravessa o jornalismo, muitos directores, editores e administradores de jornais e revistas, acham que hoje em dia só é possível fazer-se jornalismo “low cost”, sem se sair das redacções, sem se gastar tempo a investigar histórias, e acatar os custos que lhes são inerentes. Estamos a consumir muito jornalismo de fraca qualidade, e isso faz com que os mesmos editores, directores e administradores fiquem também muito surpreendidos ao ver que as suas publicações têm cada vez menos leitores.

Tudo isto num panorama de crise internacional, e com os recentes episódios de ingerência do poder político na liberdade de expressão de jornalistas portugueses como o meu amigo Pedro Rosa Mendes, leva-me não só a questionar o país onde eu nasci, mas também a acreditar que a imprensa tem cada vez mais um papel fundamental para controlar o bom funcionamento das instituições democráticas.

Mal vai o país onde os jornalistas já não podem falar, como é o caso da Síria onde na última semana o regime de Al-Asad assassinou 3 jornalistas (um sírio e dois ocidentais) no meio da barbárie que está neste momento a acontecer na cidade de Homs.

O trabalho aqui premiado O PREC já não mora aqui só foi possível, devido à Bolsa que a Estação Imagem atribui anualmente, para a execução de um projecto fotográfico sobre o Alentejo. Sem isso teria sido absolutamente impossível deambular durante algumas semanas no Alentejo à procura do que restou dos tempos em que Portugal teve um sonho, e serviu de exemplo.

Gostaria de agradecer ao Luís Vasconcelos da Estação Imagem pelo acompanhamento e encorajamento durante o tempo em que passei a trabalhar. Por razões profissionais, encontro-me fora de Portugal e como tal não me é possível estar presente esta noite, mas não posso deixar de vos saudar e dizer,

Muito obrigado!»

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