quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

QUANTO VALE OU É POR QUILO?

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Ao ver este filme, inevitavelmente, ocorreu-me esta frase de Novalis “o caos deve transparecer sob o véu cerrado da ordem”. Parece-me ser esta, aliás, a mensagem que sobressai de todo o filme – o caos, com um dedo indicador na sua direcção, a emergir do aparentemente organizado tecido social. As razões, várias, mas neste caso, com um denominador comum, os “empreendimentos assistenciais” do presente do filme, acabam por confluir numa trama rendilhada passada a dois tempos que, entre a época presente e a da escravatura, nos aproxima de uma lógica interpretativa mais imediatista. Recorrendo ao conto Pai Contra de Mãe, de Machado de Assis, e às Crônicas Históricas do Rio Colonial, de Nireu Cavalcanti, consegue o realizador efectivar com mais eficácia, parece-me, uma possível desconstrução interpretativa do mundo que nos aproxima de uma compreensão que transpõe as barreiras morais da sociedade contemporânea.

É da analogia criada entre o presente retratado no filme e as duas obras atrás referidas, referentes ao século XVIII, que vemos adensar no presente, com veemência mas também com humor, uma crítica feroz àquilo que me parece o utilitarismo mais ou menos presente nas civilizações ditas ocidentais. Confesso até que, quase no início do filme, a grande questão levantada, para mim, e desde logo, foi: sendo a ajuda social um dos muitos princípios morais do utilitarismo, não poderá quem ajuda querer ser meramente reconhecido individualmente num dado colectivo? A partir daqui, mais do que um filme de respostas e de lógicas lineares, percebi que estava perante um filme que simula, através das diversas viagens temporais e do conjunto de histórias e de passagens aparentemente desligadas do todo, estranhas (como vemos no filme de promoção da ONG ou no que é apresentado na gala de beneficência), um caos que afinal pode ter uma ordem, e a ordem, julgo, só é passível de ser compreendida dentro deste contexto fílmico em que a escravatura, como temática sugestiva, acaba por nos aproximar de uma interpretação um pouco maniqueísta de funcionamento do mundo, em que os pobres, confinados a ajudas que não resolvem os seus problemas a médio ou longo prazo, instrumentalizados absurdamente para fins lucrativos e utilitários, dão por si escravos física e psicologicamente de uma sociedade tecnocrática de desperdício que, como percebemos em muitas partes do filme, vive num mundo à parte do deles, num mundo incapaz de perceber que a própria violência, moralmente condenável e aparentemente unilateral, desligada das suas possíveis causas, não é, meramente, um fenómeno sem razão de ser, mas sim uma consequência das muitas causas que compõem o jogo de forças dentro de um tecido social, assim como a criminalidade em geral, filha do desespero e da ganância de uma sociedade corrupta em constante ebulição.

Incidindo sobre o funcionamento das ONG, sobre o lugar dos pobres na sociedade, sobre o maniqueísmo utilitário de uma dada e credível sociedade brasileira, pode muito bem este filme, ser um mosaico de uma sociedade em aceleração que nem tempo tem para, na prática, responder a questionações primordiais e despoletadoras de novos paradigmas, como percebemos por palavras simples e sábias como estas que me marcaram em convivência com uma imagética forte e esclarecedora: “O desespero faz as coisas andarem mais rápido”. Não é mentira nenhuma e parece-me elemento transversal da sociedade dita ocidental, daí a minha generalização analítica.
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