domingo, 13 de novembro de 2011

HESÍODO

.
.

Tinham os gregos antigos o hábito de deturpar tudo através da perfeição, incluindo, certamente, este busto (que se diz possivelmente ser de Hesíodo contrariando a conclusão anterior que dizia ser de Séneca). À parte isso e todo o folclore mítico, este senhor atentou contra a injustiça e contra a condição superior de nobreza que tanto me desagrada quanto leio certos clássicos. Merece sem dúvida a menção honrosa e, pela expressão do seu rosto, a minha opinião, provocatória e dogmática, quer-me fazer acreditar que de facto este busto reproduz a sua imagem.

2 comentários:

josé quintas disse...

Começo por desculpar-me, pois vou armar-me em carapau.

Parece, de facto, que as paisagens humanas de condição social mais humilde terão merecido maior atenção de Hesíodo do que dos seus antecessores e contemporâneos. Ao que parece (e repito «parece», pois dos Gregos de antanho ainda só aprofundei, dentro do possível, a Ilíada e a Odisseia), essa atenção de Hesíodo residiu sobretudo n’Os Trabalhos e os Dias. Mas até nesta, menos do que na Teogonia e nas outras menos densas, é visível uma noção vincada de hierarquia (entre deuses, heróis e até entre as “raças” de homens).

Sem querer desvirtuar essa quase consciência de classe de Hesíodo (que me é, claro, simpática), convém, talvez, contextualizar a sua condição de pequeno proprietário agrícola numa época de crise algo semelhante à actual. Terá sido durante o período em que a maior parte dos historiadores situou a sua vida que os “eupátridas” (latifundiários) puderam fazer das terras o que a banca internacional tem feito hoje em dia (até que Sólon, que tanta falta faz agora, lhes travou a ganância).

Quanto a Homero, é exacto que na Ilíada a paisagem humana retratada refere quase exclusivamente a nobreza. Na Odisseia, contudo, há diversos episódios, sobretudo quando Ulisses se disfarça de mendigo, que indiciam algo muito próximo de uma moral social. Mais uma vez, convirá não esquecer que tudo aponta para que sob o nome de Homero subjaziam diversos autores, os quais, de forma brilhante, registaram uma infinidade episódios que os precederam e chegaram até ao seu tempo por via da tradição oral, sendo, por isso, natural o protagonismo dado pelas gentes aos deuses, aos heróis e, claro, às classes mais privilegiadas.

Seja como tiver sido, este meu relambório aterrou na tua caixa de comentários porque um dia destes passou-me pela cabeça algo semelhante ao que o teu post sugere. Ao rever umas séries antigas da BBC, reparei que era muito raro surgirem personagens de operários. “Tudo” parecia acontecer na “alta sociedade”. Logo após, pensei em séries mais recentes (a BBC, como todas as têvês, está pior do que há 20-30 anos) e até na chamada “ficção nacional”, onde os estratos sociais mais presentes são a pequena e média burguesia lisboeta. Neste contraste, não será difícil imaginar onde recai o meu gosto.

Isto não pretende valer para todas as artes, nem para todos os objectos dentro de cada uma, mas, a meu ver, se o culto assoberbado da estética, por si só, não me enche as medidas, num objecto artístico a consciência social e política, desprovida de talento, do domínio das técnicas, ou de uma noção que seja do que pode ser “belo”, tão pouco basta para cativar a minha atenção.

Daniel Ferreira disse...

E fazes tu muito bem.

Felizmente ando a estudar cultura clássica e dou-te clara razão no que dizes. Tenho aliás a noção do período histórico em que Hesíodo se insere, percebo as razões que o levam a ser tão "humilde" na sua abordagem, e tem isso haver com "tomates trilhados". Infelizmente, só assim as pessoas conseguem procurar alguma justiça.

No entanto, se queres que seja ainda mais esclarecedor, digo-te que só me fascina esta subversão e ponto final. O resto, a "catalogação dos deuses" e todo o folclore não me diz nada.

Quanto àquilo que se dá o nome de Homero e às suas obras, é notória a diferença entre uma e outra, e a segunda parece-me menos má se tivermos em conta as matrizes que dali sobressaem, e nisso dou-te outra vez razão. Muito sinceramente, só percebi os motivos obscuras que me fizeram não gostar da Ilíada depois de conhecer Hesíodo. Daí talvez este aparente contentamento unilateral.

Já no que diz respeito à perfeição, que na cultura clássica e ainda hoje se confunde com equilíbrio, é uma mera provocação minha contra todos aqueles que vêm a sociedade clássica como equilibrada, não pela força dos operários mas dos escravos.

Se falarmos, porém, de estética, claro, tem de fazer ponte com a técnica e com o talento, mas também com a coragem e com o discernimento.