quarta-feira, 9 de novembro de 2011

DA EMOTIVIDADE DA MATÉRIA DO TEMPO

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A temática portanto não interessa
e eu escolho, com grandes esperanças,
os panos de cozinha. Esquecidos
na sombra da gaveta, às dezenas, compõem
o mosaico de anos e experiências,
de momentos abstractos que se perdem
na trama consequente dos dias.
Os queimados, sinceramente, limpam-me a boca
e as mãos molhadas com outro gosto
por guardarem em si o negro calor
de uma proximidade indecente com o fogão.
Mas não são os únicos, temos
por ex. e sem cicatrizar:
os laminados pela faca do pão, os trilhados
pela agressividade distraída das gavetas,
os que serviam de babete a crianças
perdidas agora em tecelagens escritas,
com desenhos campestres de uma cidade
de voltas em que o betão não era mato,
ou os que, noutras noites, guardiões de migalhas
transformadas em pássaros satisfeitos,
depois de sacudidas suaves pela janela,
puderam dar por si, por sua outra vez,
a respirar em desuso fora da gaveta,
pendurados no estendal como numa gaiola
de esperança, ou retorcidos e usados, depois
de molhados, como belas
adormecidas – olhos abertos em banheiras frias. 

De todas as cores e feitios, quase
sempre quadrados, perderam-se alguns
ao sabor do vento, não esquecendo os peludos
e os amarelecidos, os manchados
pela lixívia, transportadores de um vírus
que vem provando e reforçando
a mutabilidade do tempo. Temática
que não interessa mas justifica a doce e bruta
travessia pelas mãos de nossas mães.
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