segunda-feira, 28 de novembro de 2011

CANTO III

.
.
Recordo Havana, as paredes descascadas,
a insistente fetidez afogando o porto,
como o passado se mirrava voluptuosamente,
e a escassez roía dia e noite
o ansiado Plano dos Dez Anos,
e eu trabalhava n’ O afundamento do Titanic.
Não havia sapatos, nem brinquedos, nem lâmpadas,
nem um único momento de calma,
os rumores eram como moscardos.
Recordo que então todos pensávamos:
Amanhã tudo será melhor, e se não amanhã,
então depois de amanhã. Bem, talvez não muito melhor
na verdade, mas pelo menos diferente. Sim,
tudo será muito diferente.
Uma sensação maravilhosa. Como a recordo!

Escrevo estas frases em Berlim, e tal como Berlim
cheiro a velhos cartuchos vazios,
a Europa de Leste,
a ácido sulfúrico, a desinfectante.
Volta o frio pouco a pouco,
e a pouco e pouco leio as sentenças.
Lá longe, por detrás de inumeráveis cinemas
eleva-se, desapercebido, o Muro,
e mais além, distantes e isolados, há outros cinemas.
Vejo estrangeiros com sapatos recém estreados
desertando solitários pela neve.
Tenho frio. Recordo – é difícil acreditá-lo,
passaram dez anos apenas –
os estranhamente esperançados dias de euforia.

Naquela época ninguém pensava no fim,
nem sequer em Berlim, que há muito tempo tinha
sobrevivido à sua própria morte. A ilha de Cuba
não vacilava sob os nossos pés. Parecia-nos
que algo estava próximo, algo que inventaríamos.
Ignorávamos que há muito tempo a festa
teria terminado, e que tudo o resto
era assunto dos directores do Banco Mundial
e dos camaradas da Segurança do Estado,
exactamente como no meu país e em qualquer outro lugar.

Procurávamos algo, algo havíamos deixado para trás
na ilha tropical, de onde a erva crescia
até cobrir a sucata dos Cadillac. Tinha-se
acabado o rum, os plátanos tinham-se desvanecido,
mas buscávamos algo mais – é difícil de especificar
o que era realmente – e não acabámos por encontrá-lo
neste diminuto Novo Mundo
que discute avidamente sobre o açúcar,
sobre a libertação, e sobre um futuro abundante
em lâmpadas, vacas leiteiras e maquinaria a estrear.

Nas ruas de Havana, as mulatas
sorriam-me com as suas espingardas automáticas
ao ombro. Sorriam para mim e para um outro,
enquanto eu trabalhava e trabalhava
n’ O afundamento do Titanic.  
Não conseguia dormir nas noites quentes.
Não era jovem – o que quer dizer jovem?
Vivia junto ao mar – mas tinha quase dez anos a menos
e estava pálido de ansiedade.
Provavelmente aconteceu em junho, não,
em abril, pouco antes da Semana Santa;
passeávamos pela Rampa
depois da meia-noite, Maria Alexandrovna
fitou-me com olhos incendiados de cólera,
Heberto Padilla estava a fumar,
mesmo assim não o tinham encarcerado.
Hoje, porém, já nada se recorda, porque está perdido,
um amigo, um homem perdido,
e um alemão desertor estalou numa gargalhada desproporcionada,
e também acabou numa prisão, mas isso foi depois,
e agora está aqui mais uma vez, de novo no seu pais,
embriagado e a fazer investigações de interesse nacional.
É estranho que o recorde todavia,
sim, foi pouco o que esqueci.

Palrávamos numa gíria híbrida
de espanhol, alemão e russo,
sobre a terrível safra
açucareira d’ os Dez Milhões
– hoje já nada a menciona, desde logo.
Maldito açúcar! Vim aqui feito turista!,
uivou o desertor e depois citou Horkheimer,
nada menos que Horkheimer em Havana!   
Também falávamos de Estaline, e de Dante,
não posso imaginar porquê,
nem que relação se encontra entre Dante e o açúcar.

E olhei eu distraidamente
sobre o mar das Caraíbas,
e ali vi, muito maior
e mais branco que todas as coisas brancas,
ao longe – era eu o único a vê-lo ali
na obscura baía, na noite sem nuvens
e no mar negro e liso como um espelho –
vi o icebergue, alto, frio, como uma gelada Fata Morgana,  
a deslizar para mim, lento, implacável e branco.
.
.
Hans Magnus Enzensberger,
El Hundimiento del Titanic
.

Sem comentários: