segunda-feira, 17 de outubro de 2011

RUA DA CONCEPÇÃO, PORTO

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E nesta época em que já não é preciso
forjar a estética pretensiosa do abandono,
entregue como sempre à corrida inevitável
das máscaras ingénuas pesadas no esquecimento,
a cidade, em todo o seu esplendor, começa
a afirmar-se, diatribe contra o urbanismo, como o único
habitat suficientemente absoluto e sincero
para assegurar a nossa sobrevivência, pântano
de emoções, lodaçais, embrulhando-nos
num mesmo todo, com um mesmo laço, pacto
este que nunca nos nega a surpresa e eu agora
vos trespasso, como uma sombra,  a explicar.
Sob a luz esquecida na alegria que nos move
teimosos, resumidos em cantos sonoros de uma cidade incendiada,
recusando a teimosia mortífera da própria vida,
abriram, etimológico como uma novidade
de molde propositado, grade/galeria comercial fora
de moda e em estado de sítio, a condescender este
período de contradições moralmente inviáveis,
o fulcro ou o sepulcro cerrado de uma fermentação
existencial que me assolou meses, talvez um ano,
quem sabe, o resto da vida, numa placa escura
e expressiva: “Travessa dos Mártires da Liberdade,
Proibida a Passagem a Peões”, com um café interior aberto, esplanada,
e um mitigado labirinto para uma antípoda rua desconhecida
que, não sabendo muito bem porquê, como-
vido, não me arrisco enigmático a atravessar – há pois
que ter em conta que, embalando-nos empírico
o tempo, adormecidos neste instituto acolchoado
e histórico que nos foi oferecido pela malícia
da probabilidade dos homens, também dos medos
se faz a ignorância e do aparentemente inexplicável
a injustiça, e do que nos satisfaz (contar pelos dedos os
dias) não se pode pedir, infelizmente, muito mais,
nem tão pouco essa vida no significado das palavras
variante dúbia e questionável do que nos pertenceu e pertence.
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