sábado, 29 de outubro de 2011

FELIZES OS NORMAIS

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Felizes os normais, esses seres estranhos,
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai borrachão, um filho delinquente,
Uma casa em parte alguma, uma enfermidade desconhecida,
Os que não tenham sido calcinados por um amor devorante,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rin tin tins e seus seguidores, os que como nós, por aqui,
Os que ganham, os que são queridos até ao exagero,
Os flautistas acompanhados pelos ratos,
Os vendedores e os seus compradores,
Os cavaleiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os dedicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o esterco, as pedras.

Mas que dêem espaço para aqueles que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais borrachões
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem o seu sítio no inferno, e basta.
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Roberto Férnandez Retamar
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