quinta-feira, 27 de outubro de 2011

EXPROPRIAÇÃO ÚNICA

.
.
Vivi uns dois ou três anos contigo
em Lisboa e talvez já não
te lembres se tivermos em conta que eu
aqui, nesta cidade, a quilómetros
de distância, ia e voltava como um fantasma
perdido nos caminhos
que se fazem quando o corpo se abre a si mesmo,

dilacerado pela catana dos dias.
Quando aparecia, inteiro
ou pelo telefone,
entregava-me de corpo e alma, respectivamente.
Do som da minha voz
um holograma para olhos fechados,
e do corpo, à despedida, a promessa de uma nova
encomenda,

ambos amostras das viagens que então fazia.
Vivi uns dois ou três anos contigo
em Lisboa
e poucas vezes saí do Porto,

a verdade é essa e assim
de rompante

poucas vezes a questionaste.
Consigo agora
perceber que, mais do que enfaticamente viver contigo,
e a verdade também é essa
construíste musculada e egoísta uma nova estrada interior,

um caminho mais longo
para fugir às portagens constantes da lembrança
que nos era
tão confortável e prejudicial,

a verdade é que expropriaste de ti
os meus os nossos medos e assombrações
como um categórico
burocrata afectivo mas eficaz

e eu hoje, mais rico, agradeço-te.
.
.

2 comentários:

josé ferreira disse...

só te posso dizer que conseguiste escrever muito melhor do que eu alguma vez conseguiria os infernos interiores da passagem... brutal!

Daniel Ferreira disse...

:)