sábado, 3 de setembro de 2011

MAIS UMA VEZ, O PODER

.
.

«O sistema rotativo de cargos públicos na Grécia pré-clássica e na América pré-hispânica impedia o monopólio de poder por parte de uns indivíduos cuja mesma «vocação política» bastava para os desqualificar. Indivíduos que no dizer de Aristóteles, «se aferram aos cargos públicos como se tivessem contraído uma enfermidade que só pode curar-se com a sua continuidade no poder». Como diz Xavier Rubert de Ventós, o filósofo a quem saco esta informação, o poder de controlar e decidir sobre a vida dos demais nunca deveria nunca estar na mão de alguém bastante doente para o procurar.

E, na Grécia, quando estes «doentes» se apegavam ao poder e faziam perigar a livre circulação do mesmo, era-lhes aplicado um sistema de segurança: o ostracismo. Atenas e as cidades democráticas de Argos desterravam por um tempo indeterminado todos aqueles «que buscavam afincadamente o poder e com ele se deliciavam, quer pela sua riqueza, quer por suas numerosas relações ou por alguma outra influência política»; o «ostracismo» era um mecanismo contra a consolidação do poder político.

Ou quando nos povoados índios de Oaxaca alguém acumulava excessivas riquezas, o povo decretava a sua ruína ritual nomeando-o patrocinador da festa do santo padroeiro, patrocinato em que o agraciado devia gastar a sua fortuna se não quisesse ver-se desprestigiado ou acusado de impiedade e bruxaria.

A questão essencial, torna Ventos, localiza-se aqui: somos ricos o suficiente para permitirmos os ricos, bastante poderosos para permitirmos os poderosos? As velhas instituições dos cargos giratórios, o ostracismo, o potlach e o patrocinato pareciam responder à consciência de que o poder não nos há-de salvar, mas é aquilo precisamente de que devemos salvar-nos.

São exemplos simples de muitas coisas que podemos aprender com a História e com a Antropologia e que talvez nos permitam outros modelos para a organização política e as suas manifestações.»


António Cabrita,
Raposas a Sul
.

Sem comentários: