sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O HOMEM E O PODER

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«Um dos relatos mais comovedores e delirantes desta venda a retalho das minudências da alma é a história de Goethe, do grande Wolfgang Goethe, que ele próprio revela, sem se aperceber muito bem do que está a dizer, na sua autobiografia Poesia e Verdade. Já se sabe Goethe nasceu em Frankfurt em 1749; que, em 1774, com vinte e cinco anos, publicou A Paixão do Jovem Werther, um livro que o tornou famoso; e que, um ano mais tarde, foi convidado pelos arquiduques de Weimar a residir na sua minúscula corte como intelectual ao seu serviço. Goethe nunca mais abandonou essa corte de opereta até à sua morte, em 1832, aos oitenta e três anos. Trabalhou como um malandro durante todo esse tempo em trabalhos oficiais, como conselheiro, como Ministro das Finanças, como informador do arquiduque, inspeccionando minas, supervisionando planos de irrigação ou mesmo organizando os relatórios do pequeno Estado. Nunca se reformou; sendo octogenário, continuava como funcionário. Quando morreu detinha o cargo de Supervisor dos Institutos de Arte e Ciência.

Durante todos esses anos, Goethe continuou a escrever e a publicar grandes obras, mas não há dúvida de que a frenética actividade cortesã aliada ao seu espírito reverenciador, roubaram tempo e força ao seu labor literário. Ortega y Gasset e outros bons pensadores consideram que Goethe se perdeu ao ir para Weimar, que feriu o seu enorme dom, que o desbaratou, que não o respeitou como devia. O próprio Wolfgang queixava-se algumas vezes nas suas cartas pessoais e nos seus textos biográficos: «Não tenho mais nada a dizer-te de mim a não ser que me sacrifico pela minha profissão», escreveu a determinada altura, e a profissão, naturalmente, era o seu trabalho oficial; e, noutra altura, disse que, a partir da sua chegada à corte, «deixei de pertencer a mim próprio.»

Goethe explica em Poesia e Verdade que aceitou a oferta de Weimar porque queria afastar-se de um amor frustrado (um compromisso quebrado com a bela Lilí) e porque o ambiente provinciano de Frankfurt o asfixiava, aspirando a um maior cosmopolitismo e refinamento; mas lendo a sua autobiografia apercebemo-nos de que Goethe, um filhinho burguês de um jurista retirado, era além disso bastante snobe, o que hoje chamaríamos betinho, preocupadíssimo com as suas roupas, com o seu aspecto, com o seu lugar na sociedade e com o seu bom nome. Pelava-se por ombrear com a aristocracia e extasiava-se com a nobreza. O que acontece é que até os grandes homens (e as grande mulheres) têm as suas brechas de estupidez e miséria.

Vendeu-se barato, de qualquer forma, porque Weimar era uma corte de meia tigela; mas imediatamente conseguiu aquelas migalhas de poder que pretendia. Concederam-lhe o título nobiliárquico e os retratos de Goethe na sua maturidade representam-nos com toda a parafernália solene das faixas de seda, das fitas, da púrpura, das condecorações aparatosas. Um perfeito mandarim. E, por acréscimo, quando o septuagenário Goethe se apaixonou como um colegial por Ulrike, uma rapariga de dezasseis anos, e a pediu em casamento, o arquiduque, para ajudar o seu conselheiro, prometeu à rapariga que, caso se casasse com Wolfgang, lhe outorgaria uma elevada pensão vitalícia ao enviuvar. E isto também é poder. Mais, este tipo de intervenções na esfera do privado, são a prova mais manifesta de como estar de bem ou de mal com o poder nos pode facilitar ou dificultar a vida. Neste caso, de qualquer forma, não resultou, Ulrike não se deixou comprar. Ou seja, fez o contrário do que fizera Goethe na sua juventude.

A história da venda da sua alma (não deve ser casual ser este homem o autor do magnífico Fausto) é contada com todos os seus pormenores ridículos no final de Poesia e Verdade. Um dia, os arquiduques de Weimar passaram por Frankfurt e convidaram Goethe a juntar-se a eles na sua corte. Tudo isto é contado pelo escritor com grandes floreados de adjectivos; os duques são educados, amáveis, benevolentes, e o jovem Wolfgang (vinte e seis anos) manifesta em relação a eles uma «veemente gratidão.» A coisa far-se-ia da seguinte forma: um cavalheiro da corte, que tinha ficado retido em Karlsruhe à espera que lhe trouxessem um landau construído em Estrasburgo, ia chegar a Frankfurt alguns dias mais tarde. Goethe deveria preparar as suas coisas e partir com o cavaleiro e com o landau até Weimar.

Wolfgang achou a combinação óptima e apressou-se a fazer as malas, «sem esquecer os meus textos inéditos», e a despedir-se dos seus conhecidos. E imagino o orgulho com que o jovem pedante deve ter comunicado a toda a gente que no dia tal viriam buscá-lo da parte dos arquiduques para o levaram à corte. Mas eis que o dia chegou, sem que aparecesse quer o cavalheiro, quer o landau. E Goethe, mais envergonhado que eu sei lá, decidiu fechar-se em casa dos pais e permanecer aí escondido e sem pôr o nariz de fora, para que as pessoas julgassem que já tinha partido. Ele conta-o com um gracioso eufemismo, dizendo que o fez «para não ter de me despedir segunda vez e, no geral, para não ser incomodado por afluências e visitas»; e tem o desplante de acrescentar que, como a solidão e o recolhimento sempre lhe tinham sido muito favoráveis, aproveitou estar trancado a pedra e cal no seu próprio quarto para escrever, tentando oferecer uma imagem senhorial de si próprio, um artista tranquilo que aproveita o atraso de um cavalheiro para continuar a sua obra.

Mas a realidade deve ter sido completamente diferente. Para dissimular a aflição que sentia, Goethe atribui a sua própria angústia ao pobre do pai, de quem diz que, à medida que passam os dias sem que ninguém apareça, ia ficando cada vez mais inquieto, ao de achar que «era tudo mera invenção, que a história do landau novo não existia, que cavalheiro atrasado era uma mera quimera», e que se tratava de «uma simples travessura cortesã que se permitiram fazer-me como consequência dos meus desmandos, com a intenção de me ofender e de me envergonhar no momento em que constatasse que, em vez daquela honra esperada, o deixavam vergonhosamente pendurado.» Este receio martirizante, que era sem dúvida a suspeita que atormentava Goethe, revela muitas coisas sobre a sua relação com o poder. O grande Wolfgang era um pobre sabujo, um infeliz que desde o primeiro instante começou a arrastar a sua dignidade pela árdua subida da escala social. Os humanos são criaturas tão paradoxais que, ao lado do talento mais sublime, pode coexistir a fraqueza mais idiota e mais medíocre.  

«Assim decorreram oito dias e não sei quantos mais, e aquela clausura total foi-se tornando cada vez mais difícil.» Desesperado e nervosíssimo, a toupeira Goethe começou a sair da escuridão da noite, embuçado numa capa grossa, para evitar ser reconhecido; e assim disfarçado dava voltas pela cidade de madrugada, como um preso que estica as pernas no pátio da cadeia. Passaram ainda mais dias e, por essa altura, já o jovem Wolfgang estava tão «torturado pela inquietação» que nem sequer era capaz de escrever. Profundamente humilhado e incapaz de enfrentar os seus vizinhos e amigos depois de ter cometido a estupidez suprema de se esconder, Goethe e o seu pai decidiram que teria de se ir embora de qualquer maneira; e o compreensivo progenitor prometeu custear-lhe uma estadia em Itália se partisse de imediato. Coisa que Goethe fez, às escondidas, arrastando os seus tarecos a caminho de Heidelberg. E foi justamente em Heidelberg que lhe chegou a tão esperada carta cheia de carimbos. De tanta emoção, Goethe ficou um bom bocado sem abrir a missiva. Era do cavalheiro, informando-o de que se tinha atrasado porque não lhe tinham trazido o landau a tempo, mas que tinha ido, finalmente, buscá-lo. E pedia-lhe que regressasse imediatamente a Frankfurt para que pudessem partir e não lhe causasse o embaraço de ter de chegar a Weimar sem ele.

«De súbito foi como se uma venda caísse dos meus olhos», diz exultante Goethe: «Toda a bondade, benevolência e confiança anteriormente sentidos voltaram a aparecer nitidamente à minha frente e estive quase a envergonhar-me da minha escapadela.» Os arquiduques eram magnânimos, a glória cortesã plenamente atingível, a vida um elegante minuete cheio de promessas honoríficas. E, com efeito, Wolfgang regressou com as suas malas a Frankfurt, abanando o rabo como um cachorro agradecido; e partiu imediatamente e para sempre para Weimar. E aí, precisamente aí, acaba a sua autobiografia, um grosso volume que na minha edição tem 835 páginas, um texto que Goethe escreveu durante vinte anos, os últimos vinte anos da sua vida. Sendo octogenário, Wolfgang pôs aí o ponto final no inventário das duas memórias, como se a sua existência tivesse terminado ao partir em direcção à corte do arquiduque. É impossível tratar-se de um final casual; por baixo dos galões, das condecorações e das sedas, Goethe sabia-o. Todos nos damos conta de quando nos vendemos.»


Rosa Montero,
A Louca da Casa
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