sexta-feira, 19 de agosto de 2011

EM MATILDE (e como segunda as férias acabarão comigo)


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«Às vezes, as pessoas não entendem a forma como fala Matilde, mas a mim parece-me muito clara.

– O escritório vem às nove – diz-me – e por isso às oito e meia o meu apartamento sai-me e a escada resvala-me rapidamente porque com os problemas do transporte não é fácil que o escritório chegue a tempo. O autocarro, por exemplo, na esquina o ar está quase sempre vazio, a rua passa depressa porque eu a ajudo atirando-a para trás com os sapatos; por isso o tempo não tem de esperar por mim, chego sempre primeiro. Por fim, o pequeno-almoço põe-se em fila para que o autocarro abra a boca, vê-se que nos gosta de saborear até ao último. Tal como o escritório, com aquela língua quadrada que vai subindo as sanduíches até ao segundo e ao terceiro andar.

– Ah – digo eu, que sou tão eloquente.

– Claro – diz Matilde, – os livros de contabilidade são o pior, mal me precato e já saíram da gaveta, a lapiseira salta-me para a mão e os números apressam-se a pôr-se debaixo dela, por mais devagar que escreva estão sempre ali e a lapiseira nunca lhes escapa. Dir-lhe-ei que tudo isso me cansa bastante, de maneira que acabo sempre por deixar que o elevador me agarre (e juro-lhe que não sou a única, muito pelo contrário), e apresso-me a ir para a noite que às vezes está muito longe e não quer vir. Menos mal que no café da esquina há sempre uma sanduíche que quer enfiar-se na minha mão, isso dá-me forças para não pensar que depois vou ser eu a sanduíche do autocarro. Quando o living da minha casa acaba de me empacotar e a roupa vai para os cabides e para as gavetas para deixar espaço para o roupão de veludo que tanto terá estado à minha espera, coitado, descubro que o jantar está a dizer qualquer coisa ao meu marido que se deixou prender pelo sofá e pelas notícias que saem como bandos de abutres do jornal. Em todo o caso o arroz ou a carne adiantaram-se e só resta deixá-los entrar nas caçarolas, até que os pratos decidem apoderar-se de tudo embora isso pouco dure porque a comida acaba sempre por subir até às nossas bocas que entretanto se esvaziaram das palavras atraídas pelos ouvidos.

– É um dia em cheio – digo.

Matilde assente; é tão bondosa que o assentimento não tem qualquer dificuldade em habitá-la, em ser feliz enquanto está Matilde.»


Julio Cortázar,
Papéis Inesperados
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