segunda-feira, 4 de julho de 2011

TELEGRAMA PARA D.JOÃO V

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Eis, real senhor, Amérika;
Refúgio e amparo dos desesperados de europa,
Igreja dos inconfessos, santo e senha dos homicidas,
Capa e coberta dos jogadores,
Azáfama geral das mulheres livres,
Engano universal de todos e remédio particular de alguns;
Aqui maramos onde amarámos
Com âncoras, amarras e ânsias
Doutras enseadas, excelente rei;
Aqui maramos onde amáramos,
Aqui somos: bandeirantes, bandoleiros,
Moradores, mestiços, missionários;
Com a língua, os olhos, o medo, amargos,
Soletramos a selva, a seiva, a cachaça,
O grito dos animais, os seus tactos,
A anaconda, a onça, a boa, a barracuda, a tarântula,
Aqui soletramos Maranhão, Minas Manaus,
Aqui mergulhamos o mar no ânus,
Aqui mergulhamos em vorazes rios de piranhas, mosquitos e suor,
Excelente rei, esta é Amérika;
Aqui maramos onde filtramos
Um pouco de metal , um niagara de sangue, cemitérios de Ameríndios
Pobres escravos reduzidos;
Aqui onde maramos, praticamos o irremediável ofício de Caronte
Somos apenas aqui seus fuzis pragmáticos, remos de suas barcas,
Aqui maramos onde exercemos todo o duro, brutal e curto
Ofício da imperiosa Europa;
Aqui picamos as baronas dos impérios, excelente rei.
Aqui somos apenas vossos criados, ó hipocondríacos imperadores.
No entanto aqui lavramos o vosso testamento de ferro e sangue:
Por essa geografia de tronos passará um trovão de Átila,
Florescerá na Europa uma fauna de guilhotinas,
Palcos de catafalcos, todo o espectáculo do poder destituído
E, depois, Napoleão varrerá as vossas guerras de Hollywood,
A urina pestilenta da casta militar
……..(Gigantescas bastilhas nos arquivos,
……..Cigarros americanos no Século XX)
Voltareis, talvez, mas já não sereis vós
E tu, real senhor,
Os teus descendentes comerão os ratos dos esgotos,
Excelente rei;
Não construíste as pirâmides;
Não cozinhaste a comida das legiões de César
Não varreste os corredores dos partidos;
Não escreveste Espinosa;
Não pensaste Aristóteles nem sequer Maquiavel;
Não foste três vezes santo, três mil vezes sábio;
Foste apenas o senhor destes criados burlões, egoístas, ladros; gangsters sequiosos.
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Manuel Resende,
Natureza Morta com Desodorizante
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