terça-feira, 19 de julho de 2011

A ESCRITA

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Quando escrevemos, muito ou pouco, corremos o risco de discorrer no falhanço, abandonar a teoria em detrimento da circunstância prática; mas, se não se escreve, não se sabe. Escrever é, portanto, doutrinar arbitrariamente a arte do abandono, do caos: o caminho onde, conscientes ou não, inventariamos, verdadeiramente, formalizando-a, a enciclopédia dinâmica do que pensamos em determinadas alturas da vida, sempre pronta a ser consultada, rectificada. Não exige, pois, memória. E o seu papel é mesmo esse: expor toda a verdade por muito que a mentira se interponha por capricho, distracção ou teimosia, a imagem acertada susceptível a um entendimento pelo todo. Sejas tu leitor ou pessoa que escreve, deves ter em conta que o gosto, que faz parte de nós, é o maior inimigo da razão quando vivemos povoados de medos e de urgências, de ataques cerrados pelas muralhas necessárias da indiferença, defensivos. Esquecemo-nos que a escrita é um meio de libertação, mais uma vez para quem lê e para quem escreve. Sem qualquer tipo de preconceitos ou ideias estanques, faz-se disposta a tudo.
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2 comentários:

josé quintas disse...

"a escrita é um meio de libertação"? Sim, ok, persupuesto, de quando em vez, nada contra, mas quantas vezes não tem servido para apenas ilustrar, recusando-se a ir mais além, resignando-se à aparente inevitabilidade do cárcere? Sabes que mais, caríssimo Daniel? Isto não se te dirige particularmente a ti, pois, pleo que julgo conhecer do teu blog, estarás longe de servir de exemplo, mas que se fodam os que sobrevalorizam a escrita enquanto de meio de ascender a um patamar acima do vulgo. Há quem jogue na Bolsa com o mesmo intento e melhores resultados.

Daniel Ferreira disse...

Concordo plenamente, José, é insuficiente. E longe de querer diviniza-la. Quero apenas com isto demonstrar a minha visão da "escrita". Quanto ao "há quem jogue na bolsa (com c minúsculo é mais fixe) com o mesmo intento e melhores resultados": (a escrita) "sem qualquer tipo de preconceitos ou ideias estanques, faz-se disposta a tudo." Para o melhor e para o pior, evidentemente. E numa coisa estamos de acordo, penso: para muita gente a libertação faz-se pelo dinheiro. E sim, também concordo com Burroughs: "a escrita é um vírus", algo do género. Mesmo assim ainda há muito por onde caminhar, parece-me.