sábado, 25 de junho de 2011

LXIII


«O funcionalismo público pagava a Colin muito dinheiro, mas já não ia a tempo. Agora tinha de andar todos os dias na casa das pessoas. Entregavam-lhe uma lista, e ele anunciava desgraças um dia antes de acontecerem.

Aparecia diariamente nos bairros populosos, ou então nos bairros elegantes. Subia degraus sem conta. Recebiam-no bastante mal. Atiravam-lhe à cara objectos pesados e cortantes, palavras duras e pontiagudas, e corriam com ele. Por tudo isto recebia dinheiro e trabalhava a contento. Ia manter-se naquele trabalho. A única coisa que sabia fazer era aquilo, ser corrido das casas.

A fadiga martirizava-o, imobilizava-lhe os joelhos, cavava-lhe o rosto. Os seus olhos já só viam a fealdade das pessoas. Não parava de anunciar as desgraças que estavam para chegar. Não paravam de expulsá-lo com pancada, gritos, lágrimas, insultos.

Subiu dois degraus, seguiu pelo corredor, bateu à porta mas recuou imediatamente um passo. Quando as pessoas viam o seu capacete negro já sabiam do que se tratava e maltratavam-no; Colin, porém, não devia responder, era pago para fazer aquele trabalho. A porta abriu-se. Fez o aviso e foi-se embora. Um grande pedaço de madeira atingiu-o nas costas.

Procurou na lista outro nome e viu que era o seu. Deitou fora o capacete e andou pelas ruas. Tinha o coração de chumbo por saber que Chloé ia morrer no dia seguinte.»


Boris Vian,
em A Espuma dos Dias
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