domingo, 12 de junho de 2011

DOS NEGÓCIOS E DA POLÍTICA*

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«O colégio decidiu a direcção estranha e tortuosa que eu viria a dar à minha existência, porque foi lá que conheci aquele que mais tarde se tornaria meu amigo, o célebre ministro. Eugène Mortain.

Filho de um comerciante de vinhos, treinado na política, como eu no comércio, por seu pai, que era o principal agente eleitoral da região, vice-presidente das comissões gambettistas, fundador de diversas ligas, agrupamentos de resistência e sindicatos profissionais, Eugène continha em si, desde a infância, uma alma de «verdadeiro homem de estado».

Embora bolseiro, impusera-se imediatamente a nós por uma evidente superioridade no descaramento e na indelicadeza e também por uma fraseologia solene e vazia, que violentava os nossos entusiasmos. Por outro lado, tinha do pai a mania proveitosa e conquistadora da organização. Em poucas semanas transformou o pátio do colégio em toda a espécie de associações e subassociações, comissões e subcomissões, para que se elegia ao mesmo tempo, como presidente, secretário e tesoureiro. Havia a associação dos jogadores da bola, de pião, de eixo e de marcha, a comissão da barra fixa, a liga do trapézio, o sindicato da corrida a pés juntos, etc. Cada um dos membros destas diversas associações tinha de pagar à caixa central, isto é, aos bolsos do nosso camarada, uma cotização mensal de cinco soldos, a qual, entre outras vantagens, implicava uma assinatura do jornal trimestral que Eugène Mortain redigia para propaganda das ideias e defesa dos interesses desses numerosos agrupamentos «autónomos e solidários», segundo proclamava.»

Octave Mirbeau,
O Jardim dos Suplícios


*esta história não me é de todo estranha, e nem nisto, portanto, somos originais. E o estado que se foda, ao serviço dos mais desfavorecidos.
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