domingo, 17 de abril de 2011

A TIRANIA DO AMOR

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Se por acaso me desses o teu amor,
justificando-me, tudo estaria perdido.
Mataria, torturaria, escarraria, sem dó
nem piedade, todos os que se intrometessem
entre os meus pés e a própria terra.

Não me importaria, caso me amasses,
de ser o homem mais desprezível à face do globo,
vestido de negro e com as unhas sujas de sangue.
Capaz de afogar 10 bebés por minuto,
pregaria rasteiras a velhinhos e arrancaria os olhos
a todos os cães submissos do meu bairro.

Para não exagerar, de bandeja, ofereceria piedade
a todos aqueles que me olhassem fixamente na íris;
pouparia, urbano: os mancos, os manetas
e todos aqueles que sofrem da preocupação que não
existe, do acelerar impossível que vive do erro.

Por divertimento, pintaria os brancos de preto,
os pretos de branco
e quanto aos amarelos, pintava-os
de vermelho, e vice-versa. Fazia das cores
uma paleta para a barbárie. E isto só para não falar
nos cinzentos, o que faria eu deles se me amasses…

Transformar-me-ia num narciso, e a cada espelho
uma pedra – não precisaria de reflexos
para admirar a minha admirável e fabulosa grandeza;
estipularia, aliás, uma hora de recolher obrigatório
só para podermos passear a dois sozinhos na noite.

Resumindo, se estivesses também apaixonada por mim
eu seria um ditador \ esteta, de meia-tijela,
disposto a atentar contra o primordial pai das ditaduras
modernas que escondeu a mulher enfiando-a num manicómio,
capaz de afundar o mundo como um barco de loucos;
mas não é o caso, infelizmente. Vendo
bem, não passo de um simples \ iludido e criativo mentiroso.
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1 comentário:

CoaBreca disse...

Sim senhora, gostei. :)