quarta-feira, 13 de abril de 2011

É RIDÍCULO E HORRENDO, EU SEI

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 .

para ti, Toca, para não pensares
(excepto no tom)que para
aqueles que gostam
de aveludadas simpatias morais


Minha querida, que de outro ter lido
e daí a vontade de escrever,
posso para ti, agora, estas poucas palavras.
Que o teu pêlo, macio: ora preto
ora castanho, dure
muitos mais anos, duvido, que a minha pele.
Que cada chuto, por incómodo,
daqueles, descalço, por sentir a humidade do teu focinho,
depois de teres vindo da tua liberdade de rua,
desperdices, insubordinada, dia após dia,
tal como os carros que fintas e as pessoas que alegras.
Aos que nos chamam irresponsáveis – a mim
e à tua dona – não te preocupes,
não terão melhor e mais promissor futuro que o nosso.
Não lerás, certamente, impossível, algures por aqui
 – tão perto do sofá e da cama confortável
cedida pela morte da que te acompanhava durante o dia –
isto que te escrevo, mas uma coisa quero que saibas:
O teu dono está apaixonado, diz que tem medo de lhe falar.
Ela é bela – demais, até! – e serve-lhe copos,
oferecendo-lhe alguns com sorrisos cada vez mais cansados.
E ele (eu é mais pesado) fraqueja; cede,
impaciente, ao peso da beleza em movimento.

Que morra ele de desgosto
(primeiro que a tua dona sua
mãe), e que no dia do seu enterro, que rejeita
veemente, guardes todos os ossos soltos
pelo tempo da sua carne
num qualquer buraco de baldio feito por ti.
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