terça-feira, 8 de março de 2011

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Remeto-vos à grande crónica pantagruelina, para que conheçais a genealogia antiga de Gargântua. Ao longo dela aprendereis como os gigantes vieram ao mundo e como, de entre eles, saiu Gargântua, pai de Pantagruel. Não vos enfadeis se, neste momento, me afastar deste assunto, embora a coisa seja de tal ordem que, quanto mais a recordarmos, mais ela agradará a vossas senhorias; como Platão vo-lo garante, no Górgias, também Flaccus observava que existem propósitos que, como os meus, sem dúvida nenhuma, quanto mais os repetimos, mais deleitosos se tornam.
Prouvesse a Deus que cada qual soubesse tão bem a sua genealogia, desde a arca de Noé até hoje! Penso que algumas pessoas, que hoje são imperadores, reis, duques, príncipes e papas na terra, descendem de qualquer vendedor ambulante de guisados de carne ou de molhos de lenha, assim como, pelo contrário, alguns mendigos que andam a pedir esmola às portas dos palácios e das igrejas, infelizes e miseráveis, descendem do sangue e da raça de grandes reis e imperadores, desde os Assírios aos Medas, dos Medas aos Persas, dos Persas aos Macedónios, dos Persas aos Romanos, dos Romanos aos Gregos, e dos Gregos aos Franceses.
Para vos dar um exemplo, eu mesmo, que estou a falar-vos, creio descender de algum opulento rei ou príncipe de outros tempos, porque jamais vistes um homem que, mais do que eu, tenha maior desejo de ser rei e opulento, para ter boa mesa e não trabalhar, viver sem preocupações, e também para enriquecer bastante os seus amigos e todas as pessoas de bem e de saber. Mas consolo-me com o pensamento de que no outro mundo serei muito maior do que não ousaria mesmo ambicionar agora. Vós, com igual ou melhor pensamento, consolai-vos da vossa infelicidade, e regalai a goela com bom vinho, se o puderdes.
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François Rabelais,
Gargântua e Pantagruel
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