domingo, 6 de fevereiro de 2011

POLÍGONO

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O empregado escutava distraído. Espreitava o televisor ligado num canal de desporto. Entrei e ninguém mais para além dela. A mulher falava sem pausas e faltava-lhe o ar, que não acompanhava o débito de palavras, as palavras necessárias para livrar-se de uma carga. Devido ao alheamento do empregado, entretido com a velocidade e a destreza na neve, a mulher deixava a impressão que falava sozinha.
Trabalhava num polígono industrial. Ainda haviam bastantes armazéns e oficinas. Fábrica é que já não restava nenhuma. Nos terrenos das antigas fábricas levantaram edifícios de escritórios. Trabalhava num deles, demarcado por gabinetes, grandes salas cheias de cabeças e secretárias, elevadores panorâmicos, mármore negro, quadros de ex-presidentes norte-americanos, centros de trabalho que tinham como subtítulos comunicação marketing estratégia, um bar chill-out com bebidas a preço reduzido a determinadas horas, e mulheres de saltos altos programadas para ir do ponto A ao ponto do B e daí pisando todas as letras do alfabeto até ao destino fatídico, o ponto Z, o derradeiro. Eu trabalhava num desses edifícios em que se publicitava a localização com base no binómio espaço/tempo: a quinze minutos do aeroporto, a dez minutos da auto-estrada e a cinco minutos do porto exterior. À sexta-feira todos saíam à hora do almoço para já não voltarem. Mas eu ficava até mais tarde. Esse era o meu dia preferido. O polígono, normalmente atestado de carros e trânsito de pessoas e mercadorias, convertia-se num enorme espaço vazio e interrompido. Agradava-me a quantidade de solo livre. A mudança em relação aos restantes dias da semana era repentina mas agradável. Durante o resto da semana era impossível reparar no que quer que fosse. O movimento caótico impossibilitava qualquer demora da atenção e, mesmo alcançando esse esforço mental, era impossível recordar algum pormenor significativo, tantas seriam as interferências. Mas sexta-feira era um dia diferente, saía do edifício e parecia entrar num espaço desconhecido, alguma zona por explorar de uma cidade a que estava recém-chegado. Em vez de voltar ao centro passava umas horas no único bar aberto do polígono. Pedia algo de comer. Punha a leitura dos jornais da região em dia. Interessavam-me as notícias das localidades costeiras, onde os pequenos acontecimentos pareciam ter uma dimensão elucidativa da origem dos grandes desastres, pessoais ou históricos.
Saí sem saudar o empregado. Só costumava pagar as contas no fim do mês. Um camionista fazia manobras para estacionar. O camião já ocupava vários lugares destinados a veículos ligeiros. O camionista preparava-se para deixar ali o camião todo o fim-de-semana. Fiquei a assistir às manobras e quase adormecia, à porta do bar, em pé, enquanto escutava o ruído do motor em rotações. Maldisse a falta de tacto do empregado. Depois o camionista desligou o motor e só o silêncio. Incomodou-me a ideia da mulher sair e abater-se ainda mais, só notando o pó que o vento noroeste levantava.
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Samuel Filipe
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