domingo, 20 de fevereiro de 2011

A HORA DE CHEGAR

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Chovia a potes.
– Dá-me um cigarro.
Dei. Só tinha mais três.
Sentados na tasca do Afonso, sentíamos frio. Sair, nem pensar nisso.
– Mais dois bagaços, – berrei, rouco. E fui buscá-los ao balcão.
– Pois é, – foi dizendo o Sacadura, enquanto engorgitava o líquido – para estar aqui, ficou o Preto lá no quarto, sem calças. Só temos um par para os dois.
Não respondi. Não valia a pena.
– Sabes – continuou o Sacadura, – isto vai cada vez pior. Ainda vão acabar por nos meter no barulho. Não há outro remédio. Só querem encher-se e a gente que se lixe. Ora vê lá…
Deixei de ouvir. Bem falante, o Sacadura, mas complicado demais para mim.
– … economia do tipo capitalista não pode aguentar a perda de mercados de consumo sem uma compensação de escoamento da produção. Portanto como é que…
Pois claro. Mercado de consumo, sim senhor. Mas a fome que eu tinha? Oito e setecentos, era o que havia na algibeira.
– … e então não há outro remédio para eles senão…
Evidentemente, o Sacadura sabia daquilo. Mas o facto era que o Preto lá estava no quarto, a tiritar.
Na mesa do lado, um raquítico sorvia uma sopa. Barulhento, o tipo.
Um gajo meteu uma moeda na caixa da música. Fado. Não percebi quem grasnava. Estava mesmo com fome.
– Estás ou não estás a ouvir?
Olhei o Sacadura. Olhos duros. Farto, era o que eu estava.
– Claro que não.
– Bem, estou a perder o meu latim. – De repente humanizou-se. – Ainda hoje não comi nada. – Olhou-me e sorriu. Sorriso desesperado. Sorriso amigo. – Olha, ontem também não foi abundante. Uma posta de chicharro com anel e tudo, ali na Travessa do Forno. Comia qualquer coisa. E tu?
Eu também, mas não lhe disse. Berrei para o Afonso:
– Traz aí uns carapaus. E pão.
Fui buscá-los ao balcão.
O Sacadura olhou o prato. Comeu três. Eram grandes, dos de doze tostões.
– Tu não comes?
– Não me apetece.
– És um sofisticado.
Nisto de palavras esquisitas, só o Sacadura.
– Vamos fechar, meus senhores. – Anunciou o Afonso, voz inflexível. Nada a fazer.
– Quanto? – Perguntei, seco.
– Quatro bagaços, três carapaus, uma carcaça. Oito e cem. Dei. Sobraram, seis tostões. Chegava. Para quê, não sei.
Saímos. Chovia. Levantei a gola do casaco.
– Estás a ver? – O Sacadura mostrava as pernas. Enroladas em jornais. – Assim não há frio que nos pegue.
– Claro – concordei. – Boa noite, Sacadura.
Fazia frio.
– Boa noite. Vais-te já deitar? – Perguntou o Sacadura, curioso.
– Nem mais.
– Onde?
Não respondi. Para quê?
Seguimos, cada um para seu lado.    
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Mário-Henrique Leiria,
Depoimentos Escritos
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