quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DAS MASSAS E DAS REVOLUÇÕES (ACTUALIDADE)

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Parece, portanto, inegável que a violência humana se manifesta por expectativas sociais: na era da visão teológica, os deuses possuíam-nos, e na era da visão atómica, estamos determinados por unidades mínimas cuja estrutura genética impõe uma herança de reacção e luta. Se há algo claro nesta história extrapolativa, é que a teoria do instinto se inscreve num mito de libertação característico do homem: o seu intento de se livrar da responsabilidade directa pela sua actividade destrutiva.
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Fernando Báez,
História Universal da Destruição dos Livros
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6 comentários:

josé quintas disse...

É isso (tentativa de desresponsabilizar os impulsos destrutivos), mas não só. A visão de F. Báez é redutora por não ver que "o intento de se livrar" (i.e. o impulso libertador) acaba por ser o natural contrapeso da pulsão destruidora. Por vezes confundimo-se (e Báez fá-lo), mas pouco há de mais humano que a coexistência/o conflito entre ambos.

Enfim, como em quase tudo, é uma questão de perspectiva, mas se ao des/valorizarmos o Humano a diferença consiste apenas em ver apenas um "copo semicheio" ou um "copo semivazio" de água, convém não esquecer que na metade vazia existe ar... ou seja, objectivamente, o copo está sempre mais cheio do que vazio.

Como é evidente, o que pretendo com este arrazoado é manifestar a minha profunda dor diante da impossibilidade de o Benfica ser campeão. Melhores dia virão.

Um abraço, Daniel

Daniel Ferreira disse...

Sim, claro. O que tentava, no entanto, aqui aplicar com este texto, tem mais a ver com a parte final ("o seu instinto de se livrar da responsabilidade directa pela sua actividade destrutiva."). Diz que as revoluções, como a que aconteceu aqui em portugal, servem sempre elites e interesses mais obscuros do que os apregoados mediaticamente. Centralizando mais a coisa e situando-a bem no centro, nas revoltas-dominó dos países árabes, parece-me que o desapego da "responsabilidade directa" (o poder) em contra-mão à "sua actividade destrutiva (a revolução, não a depreciando), mesmo com as devidas e justas quedas de regime e consequentes melhorias de vida, acabam por ser uma porta aberta para aquilo que, parece-me, vai ser a ocidentalização (esperemos que não) selvagem de uma sociedade onde, como a história do copo meio cheio, nem tudo é mau. Pessimista como sou (e para mim o copo deve ser sempre cheio) acredito que estas revoluções são o culminar das cruzadas neo-liberais. Finalmente (e o mundo árabe é tão vasto, populoso e quase virgem pois só meteu ainda o dedinho), as portas, mais do que nunca, estão quase abertas. É, mais uma vez, aquela velha história da liberdade e da sua bandeira: tem duas faces. Quanto ao benfica... ui, do que foste falar. Quero acreditar que não, que é impossível, mas espero que sim. Até no futebol sou pessimista. :) Forte abraço, rosé!

josé quintas disse...

Seja. É sinal de inteligência desconfiar das versões contadas pelos mais velhos. Acho que entendi, excepto aquela parte do 25 de Abril, de um modo obscuro, ter acontecido para servir as elites (?!). Toma lá uma provocação de troco:

João César das Neves, esse enorme democrata, também acha que não vale a pena derrubar ditadores porque, a seguir, vêm iguais ou piores. Se todos pensassem assim, não havia História. O fogo ainda surgiria após a fricção de duas pedras de sílex.

Quanto ao pessimismo como atitude, nada contra, se esquecermos como é demasiado fácil e fica tão bem adoptá-lo.

Finalmente, quanto ao rosé, muito obrigado, mas devolvo-to. Todas as rosas para quem quiser apanhá-las. Nunca votei nem votarei PS ou semelhante. Também nunca me abstive, pois estaria desse modo a votar PS/PSD. Nem tu, talvez, nem o 25 de Abril eram nascidos e a minha cor já era a do tintol, ou seja, vermelho muito escuro, negro-anarca, por vezes.

Um abraço tinto para ti
(dizem que faz bem ao coração)

Daniel Ferreira disse...

Meu caro, é óbvio que o 25 de abril não serviu só as elites e contribuiu, e bem, para uma clara melhoria da qualidade de vida neste país; mas isso já sabemos, não? Quanto às elites e ao seu papel na revolução dos cravos, pesquisa. Não tenho léxico nem paciência para te explicar isso agora. Se achares uma infantilidade, é esta a minha provocação por me equiparares a um gajo como O Abominável João Homem César das Neves. Como adenda, repito explicitamente porque às vezes escrevo entre dedos: Não tenho nada contra as revoluções árabes, até concordo, justificam-se, simplesmente temo o que virá (chama-me agora Pulido Valente que eu, embora menos ofendido, bato-te se te vir na rua!).

Quanto ao pessimismo como atitude, é uma falácia interpretativa. O meu pessimismo é inerente, tem a ver com certas intimidades que só a mim me dizem respeito, somatórios. Pode bem ser um problema corporal e químico.

Finalmente, a cena do rosé: era uma mera espanholice; prefiro, de facto, o tinto, muito (de preferência alentejano). Já no que toca à ebulição do rosé para as rosas, e das rosas para o direito ao voto, e, do direito, à abstenção, meu caro, parece-me, e acredito que mal, que o anarquista, a sê-lo, não deve tão pouco votar. Mas se calhar isto é a minha costeleta João César das Neves (sim, é outra reacção à ofensa) a falar e a dizer Ah, fica bem e deixa sempre no ar a ideia de um homem nu e livre. Sinceramente, embora não compreenda o teu tom sulfuroso e as cruzes de vencedor semanal do euromilhões, não te condeno – lá terás as tuas razões.

Abraço, José! Ou então, mais uma vez, como dizem os espanhóis. (João César das Neves?!)

josé quintas disse...

Receio não me ter feito entender lá muito bem (é o que dá carregar no «publicar» sem corrigir mais do que os lapsus calami). Não há nada de pessoal nisto (i.e., contra ti), excepto a minha opinião, claro:

Venha o que vier a seguir, entre o direito à indignação e ao protesto por parte das populações (direito raramente exercido) e o direito de qualquer um em duvidar das motivações de quem o exerce (o “pessimismo demasiado fácil” que referi mais acima), vou, como sempre, preferir o primeiro, quanto mais não seja por ser definitivamente mais raro.

Aliás, sempre que, em papel ou pixels, vejo seja quem for defender o pessimismo, a melancolia, ou algo próximo disso, assumido com uma ponta de orgulho mal disfarçado, quiçá como atitude sobranceira com os demais, penso sempre:

Quem pensam estes caralhos que são (que somos, pois também tenho momentos desses)? A maior parte deles (e de mim), imagino, nem sequer sofre de problemas de renda, contas do hipermercado, propinas, alimentação, roupa dos filhos. Se fossem REALMENTE pessimistas, ou vítimas da melancolia, preservariam a distância e o silêncio, evitando assomos, poses no fundo, de orgulho e superioridade mal disfarçados.

Seja como for, o «sulfuroso» com que me caracterizaste agradou-me. Antes sulfuroso que snob.

Daniel Ferreira disse...

Sabes o que te digo? Tendo em conta que a discussão acabou em paleio de treinador da bola ( "não vou falar sobre a arbitragem mas fomos roubados"), deveria, tal como faço todos os dias com o meu orgulho (infelizmente), cagar no assunto.

Mesmo assim, parece-me, pode-se concluir algumas coisas.

Primeira: não passou de um mal-entendido que acabou em açorda umbilical.

Segunda: afinal, como pensei já ter deixado explícito noutras posições sobre a temática, estamos os dois de acordo relativamente às revoluções recentes.

Terceira: percebeste finalmente, acho, o que tentei dizer com o texto que originou tudo isto.

Peço-te agora uma coisa: olha-me em pixeis como um todo e não me ponhas palavras em latim nos comentários que eu não percebo.

Obrigado.