quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ROSE

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«Sobre um prefácio de Boris Vian podia-se provocar um escândalo de proporções consideráveis. Ele estava em Nova Orleães em 1946 e escrevia que as regras de conduta não devem necessitar de ser formuladas para serem seguidas. Isto, bem entendido, não se adapta às multidões, a não ser que elas se qualifiquem como indivíduos. Mas, por falar em Nova Orleães, aquilo é agora muito diferente. Num barco que me levava a Palermo, viajava o Dr. Dulles – não o da política dos riscos calculados, mas outro, um homem alto e bem parecido, acompanhado pela mulher. Enquanto o Dr. Dulles era arrogante e gostava de exibir os seus casacos de bordo – tão extravagantes que só um lorde inglês se atreveria a usar, tal como Duke Ellington também –, a mulher dele era discreta e possuía uma sedução especial: ela manifestava a curiosidade sentimental pelas pessoas e tudo o que acontecia. No meio de uma turba grosseira no automatismo da sua satisfação, ela parecia extremamente requintada. E aliava o sentido da sua temeridade a uma agradável sensibilidade do direito de toda a comunidade que a envolvia. Ela chamava-se Rose.

Foi ela quem me falou de Nova Orleães, que se tornara calculadamente pitoresca e nem mesmo isso: comercializara até a sua atmosfera dos anos 20 e servia-a requentada ao seu forasteiro.

– Dentro de alguns anos – disse Rose – a história de todos os lugares do mundo não pode mais ser proposta à imaginação. Faz-se um grande plano que projecta uma verdade sintética e facilmente aceite, e acabou-se.

– É demasiado estúpido.

– Nada é demasiado estúpido para um homem branco, desde que signifique uma intrusão. – Rose olhava à sua frente as velhas americanas sentadas no salão chamado de Arras, e sorria com aquela insistência que nos negros não significa gáudio nem divertimento. O Dr. Dulles discutia a cultura do milho híbrido e não se alheava nunca da sua importância física. Era um biólogo, ou uma coisa assim. Não se dirigia à mulher com a intimidade insinuante que usam quase todos os casais. Até raramente lhe falava em público. Tratavam-se ambos com uma certa distância, e não havia cumplicidade entre eles. O seu comportamento social, a sua presença humana mantinham uma certa ordem naquele mundo caduco e teoricamente exemplar. Jogava-se o bingo; risinhos cúpidos acentuavam os ganhos, e um animador mantinha o nível de interesse com ditos vulgares e de irresistível efeito.

– Rose – disse eu –, você participa realmente na civilização das valsas e tudo o mais?

– Não sei. Mas música de Nova Orleães é um vício de brancos. Nós já estamos um pouco longe da nossa natureza folclórica, ainda que nos submetamos a outra. Não por muito tempo.

– Que quer dizer não por muito tempo?

– As pessoas todas contraem o passado como uma doença qualquer. Acho que nos curaremos disso.

Rose pôs-se a falar dos grandes supermercados, e lamentou-se de que não vendessem caviar nem escargots

7-8-1974
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Augustina Bessa Luís,
Conversações com Dmitri e Outra Fantasias

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