sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

TÓPICOS PARA DESMISTIFICAR O SURREALISMO NESTE NOVO SÉCULO

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Bitaite a la Parra,
     de uva chilena



Facilitar os despedimentos.
Despir, uma por uma,
as roupas dadas pela segurança social.
Ajudar, qual Mefistófeles,
para um melhor funcionamento hospitalar.
Acalmar com clareza e determinação
as velhinhas nos mercados.
Inventar uma nova roda dentada
para, com guerras diplomáticas
ajudar a destruir, axiomaticamente
a antiga e em vigor.
Virar cobertores para o avesso.
Cumprir com escrúpulos e gosto
os mandamentos da rainha abstracção.
Determinar uma hora
para fechar a assembleia
a meio da tarde, com direito a táxi.
Ligar máquinas aos pés
e correr desalmadamente,
aguardar a chegada cansada do corpo.
Derreter consecutivamente
o maior número possível de anéis
dedos, voltas, pescoços,
pulseiras: com os respectivos punhos abertos.
Chamar querido ao próximo
e inimigo ao ainda mais próximo,
ao que habita no subconsciente.
Consolar as ervas radiantes,
os nossos glóbulos dentro do corpo.
Digerir a mais indigesta e prometida
comida de ração para vindouros.
Cofiar, com os pés, os queixos,
ferrar com alento uma ferradura.
Deixar a armada profissionalizada
tomar conta dos canteiros e das fruteiras.
Limpar as sanitas
para melhor e mais confortável cair o poio.
Soltar os cães da liberdade
e arranjar uma gaiola pró
desconfortável,
com princípios passivos, direitos arenosos.
Descer aos infernos comprando uma escada
barata para os céus da madrugada.
Desinfestar os joelhos.
Percorrer o mundo em oitenta mil léguas submarinas.
Despejar entretanto o lixo na lua
e fazer do sol uma estância turística.
Conduzir de olhos fechados:
acelerar até que todas as luzes do caminho se apaguem.
Desembrulhar a luz;
não encontrar nada para além de nada,
nem sequer um espaço vazio.
Investir de novo no amianto
para um melhor outono \ inverno.
Enxertar uma macieira e uma víbora-pau-mandado.
Descer aos esgotos e conseguir,
com classe, molhar os pés com água limpa.
Esfregar bem as costas num tronco
para aniquilar de vez a comichão.
Polir o chão com cera dos ouvidos.
Cantar, a morta voz:
a honra, a dignidade; outras afinidades ancestrais de valor;
etc. etc. etc. + qualquer coisa
que se passe
de uma mão para a outra, sem pestanejar.

POST-SCRIPTUM

Qualquer dúvida
escreva para uma embaixada
dos Emirados Árabes
Unidos; um ocidental de ouro
(el dorado) esperará por si
esclarecendo-o.
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